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Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

UM CASACO DE PELES QUE NÃO CHEGOU A SÊ-LO

 


Aí por 1948 realizou-se em Lisboa a Exposição Suíça. Naquele certame podiam ver-se os muitos artigos que os suíços são capazes de fazer apesar da pequenez do seu país, da pobreza do seu solo e da escassez de matérias primas.
A Suíça , mesmo falando várias línguas, tendo várias religiões e estando dividida em vários cantões, tem mantido através dos séculos um estatuto externo de neutralidade e interno de paz e prosperidade, graças à actividade do seu Povo.
Com a realização daquela exposição e doutras semelhantes noutros países, os dirigentes suíços pretendiam expandir a venda dos seus produtos, nos diversos mercados que estavam ávidos de comprar, devido à escassez de manufacturas a que o mundo esteve sujeito entre 1939 e 1945, por motivo da 2ª Guerra Mundial.
Para o acto inaugural daquela exposição foram convidadas as principais figuras políticas e militares, e também da indústria, comércio e agricultura.
O embaixador e a esposa receberam, como anfitriões, os convidados. Esta envergava um valioso casaco comprido de peles, que causou a inveja de todas as senhoras presentes, que por curiosidade lhe perguntaram de que animal era o seu casaco. Foi com surpresa que ouviram como resposta, que o casaco era feito com peles de toupeiras.
Entre os convidados contava-se a esposa dum engenheiro algarvio, que tinha sido ministro da agricultura, agora deputado e membro da administração de diversas empresas e abastado proprietário.
Uma das suas propriedades situava-se na freguesia de Vila Nova de Cacela, e tinha aí um chalé onde vinha passar uns tempos com a esposa.
A esposa sabia que naquela propriedade, bem como noutras da região, havia toupeiras e pensou mandar fazer um casaco igual ao da embaixatriz, com peles de toupeira desta zona.
Como residia habitualmente em Lisboa contactou aí com uma costureira, que se comprometeu a fazer o dito casaco, precisando para isso de cerca de 1200 peles de toupeira bem curtidas.
A senhora resolveu levar em frente a ideia de mandar fazer o casaco e, depois de consultar o feitor da propriedade, optou por pagar 3$00 cada pele ou 2$50 por cada toupeira morta mas não esfolada.
Este preço foi considerado aliciante, pois calcularam que qualquer pessoa munida de uma enxada podia apanhar 7 ou 8 toupeiras por dia, o que dava um salário superior ao dum trabalhador rural, que nessa altura ganhava uns 15$00 por dia.
O feitor contactou os meios locais de difusão de notícias - tabernas, barbeiros e sapateiros - para informarem os seus frequentadores de que, quem pretendesse apanhar toupeiras as podia entregar na propriedade da sua patroa, recebendo ali o preço acima indicado.
A toupeira é um pequeno animal do tamanho aproximado dum rato, que vive em galerias subterrâneas que escava na terra com as patas dianteiras, que estão devidamente adaptadas para o efeito. Alimenta-se de insectos, vermes e cascas de raízes que encontra nessas mesmas galerias. A sua presença nota-se pelos pequenos montículos que forma à superfície do solo, com a terra que retira das galerias, e que empurra para fora sem nunca sair à luz do dia. Por isso lhes chamam também ratos cegos.
Muitas pessoas da zona, ao tomarem conhecimento do prémio pela apanha de toupeiras, aderiram a essa actividade.
As toupeiras que durante milénios viveram, mais ou menos, sossegadas nas suas galerias, viram-se de repente perseguidas e chacinadas para satisfazer um capricho da moda.
Durante vários dias dezenas de pessoas percorreram as propriedades na região em procura dos montículos de terra, que indicavam a existência de toupeiras e quando os encontravam escavavam com a enxada as suas galerias até as apanharem.
Em pouco mais duma semana foram apanhadas as cerca de 1200 toupeiras, pelo que acabou a sua perseguição e as sobreviventes podem talvez contar com muitos anos de vida sossegada.
Esta história teve um epílogo frustrante, pois o casaco não chegou a ser confeccionado , porque o curtimento das peles não ficou em condições e a interessada desistiu da ideia, com medo do ridículo de novo insucesso.
Assim foi em vão o sacrifício das 1200 toupeiras.

 

em, Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

 


(  Jornal do Algarve em 2 de Abril de 1997 )
 

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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

UM HOMEM PREVENIDO, QUE MESMO ASSIM FOI BURLADO

       Zé Valongo era natural de Vila Nova de Cacela e residiu na sua zona ocidental, próximo de Santa Rita, entre os fins do século XIX e meados do século XX.

   Dedicava-se à agricultura, cozia fornos de cal e fazia pequenos negócios. A sua actividade agrícola era reduzida, pois só possuía uma pequena propriedade. Em Outubro semeava trigo, favas e griséus e em Fevereiro semeava milho, feijão, grão de bico e melões e plantava batatas e tomateiras. Tudo para consumo próprio e para os animais que possuía. Tinha habitualmente uma vaca e a sua cria, um porco, uma mula e uma cabra.

   Para a sua actividade industrial, de cozer cal, enchia a caldeira do seu forno de lenha e depois enformava devidamente as pedras de calcário a partir da base circular do mesmo, em volta da caldeira, e fazia uma “parede” que ia alargando e terminava em abóboda. Depois dava fogo ao forno e, uma vez consumida a lenha da caldeira, ia alimentando a combustão com mais lenha previamente reunida, em quantidade suficiente, para manter o fogo sem interrupção umas 36 horas. Como não aguentava tantas horas de trabalho seguidas arranjava um colaborador para o ajudar.

   Este trabalho era infernal principalmente no Verão em que além do calor da estação, tinha de suportar a alta temperatura que vinha da porta do forno.

   Uns dias depois de terminada a cozedura, a temperatura do forno já dava acesso e começava a retirar a cal para vender. Esta operação era conhecida como “dar cal”.

    Produzia uma parcela maior de cal preta, que nesses tempos era muito utilizada na construção de paredes e seus rebocos. A cal branca servia para estuques e para caiar. A cal branca que não vendia à porta do forno, carregava-a na sua carroça de tracção animal e ia vendê-la nas localidades próximas, apregoando “cal branca”, e ia dizendo que a cal era de Santa Rita, pois esta tinha fama de ser mais branca que todas as outras.

   Na área dos negócios actuava no sector das lenhas, que comprava na mata de Santa Rita e vendia nas padarias de Cacela e Vila Real de Santo António, e nas fábricas de conserva desta cidade, onde era utilizada para cozer o peixe.

   Também comprava e vendia favas, nesse tempo muito utilizadas nas rações de mulas, burros e cavalos, e milho, este muito utilizado na alimentação humana e de animais.

   Nos dias que ia vender produtos a Vila Real abalava de casa de madrugada, pois a viagem de carroça com carga era demorada.

   Depois de entregar a carga, ia pôr a carroça na estalagem do Hortinha e dava ração à mula. Depois dava uma volta pela vila, ia beber café nas Caves do Guadiana, passava pelo mercado para fazer algumas compras e dirigia-se à Casa Capa para comprar artigos de mercearia.

   Foi ali que ao ver o preço a que vendiam o milho, comentou que o mesmo estava muito caro. Um dos muitos clientes da casa confirmou a justeza do seu comentário e disse-lhe que nos arredores de Lisboa, havia um lavrador a quem ele comprava o milho muito barato. A conversa continuou e daí a pouco estavam ambos à mesa duma taberna a beber uns copos de vinho e a falar sobre negócios. O Valongo ficou muito admirado quando o seu interlocutor o informou do preço a que comprava o milho e mostrou-se interessado na compra de uma boa partida.

   O outro disse-lhe que tinha um camião e que por vezes vinha de Lisboa carregar conservas de peixe a Vila Real, pelo que podia trazer-lhe o milho, cobrando um frete insignificante, mas tinha que ir a Lisboa para fazer o negócio. Na viagem de regresso podia apanhar boleia consigo no camião. Acrescentou que daí a uns oito dias vinha novamente carregar conservas. De seguida combinaram o dia e a hora dum encontro na estação do caminho de ferro do Rossio.

   Valongo não dispunha de muito dinheiro e teve que vender uma vitela, para poder comprar o milho.

   Nas vésperas do dia combinado embarcou no comboio correio, que chegava a Lisboa no dia seguinte de manhã.

   Ele conhecia histórias de carteiristas e de outros amigos do alheio que actuavam em Lisboa e, para evitar ser roubado, colocou a carteira com o dinheiro para a compra do milho dentro das ceroulas, próximo do tornozelo, e atou bem os seus nastros. Para algumas despesas extra levou algum dinheiro no bolso do casaco.

   Chegado à estação do Terreiro do Paço dirigiu-se para a estação do Rossio. No percurso encontrou um conterrâneo, seu conhecido, que lhe perguntou o que fazia em Lisboa, ao qual respondeu laconicamente, “o segredo é a alma do negócio”.

   Chegado à estação do Rossio, ali encontrou o seu “amigo camionista”, que lhe disse que o “lavrador” do milho chegava ali no próximo comboio. Após a chegada do “lavrador”, o “camionista” negociou com ele a compra de uma porção de milho, que pagou a pronto, tendo recebido um vale para apresentar ao empregado que o iria levantar e depois fazer a sua entrega numa propriedade dos arredores. Em seguida apresentou o “amigo” que tinha vindo do Algarve para comprar milho. O “lavrador” mostrou-se aborrecido dizendo que já tinha pouco milho. Mas depois, de alguma insistência do “camionista” que lhe fez ver a maçada da viagem e a sua própria culpa na lastimosa situação, lá lhe dispensou o milho pretendido para ele não fazer a viagem em vão.

   O Valongo para fazer o pagamento arregaçou as calças e desatou os atilhos das ceroulas para tirar a carteira, e assim, perante os sorrisos maliciosos dos dois vigaristas, entregou ingenuamente o dinheiro que tinha em bom recato.

  O vendedor despediu-se amavelmente de ambos e foi à sua vida.

  O “ camionista”, entregando o vale de levantamento ao algarvio, disse que tinha de ir à casa de banho e afastou-se.

   Como não mais apareceu o Valongo entrou em pânico e apresentou queixa na polícia, a qual concluiu que ele, mesmo sendo prevenido, tinha sido burlado.

   As autoridades nada conseguiram apurar e o nosso homem, com algum dinheiro que tinha no bolso do casaco, comprou o bilhete de regresso ao Algarve.

   Aqui chegou derrotado, triste e descrente do velho ditado que diz “homem prevenido vale por dois”.

 

 em, Memórias Escritas, de Fernando Gil Cardeira

 

 

( texto publicado no Jornal do Algarve em 2 de Outubro de 1997)

 

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publicado por vítor às 22:57
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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

SEBASTIÃO RICARDO, UM CURANDEIRO DE CACELA

Durante a minha longa vida conheci diversas pessoas que exerciam a actividade de curandeiros, embora tendo outra profissão principal.

   Os “endireitas” e os “emplastradores” eram sempre homens.

   As “curas” do aflito, do quebranto, do mau olhado, o exorcismo de espíritos maus e as sortes de cartas eram geralmente feitas por mulheres.

   Na minha opinião os curandeiros que conheci não curavam os males do corpo nem do espírito, pois tinham poucos conhecimentos para isso.

   Contudo, acredito que muitos dos doentes, que a eles recorriam, sentissem melhoras com os seus tratamentos, rezas e conselhos por sugestão e devido à fé que depositavam nas virtudes do “curador”.

   De todos os curandeiros que conheci houve um que atingiu grande destaque, pela grande quantidade de doentes que curou.

   Chamava-se Sebastião Ricardo e viveu no sítio da Venda Nova, Vila Nova de Cacela, entre cerca de 1890 e 1940.

   Em criança aprendeu a ler e a escrever e depois foi aprender a profissão de barbeiro.

   Nesses tempos alguns barbeiros faziam biscates de “medicina”, tiravam dentes, faziam sangrias e pouco mais.

   Desses tempos ficou o ditado, “Quem lhe dói o dente é que cata o barbeiro”.

   As sangrias baseavam-se na crença existente na época, de que o sangue na sua circulação durante muito tempo criava impurezas. Por esse motivo muita gente procurava os barbeiros, geralmente na Primavera, para serem sangrados. Estes faziam uma pequena incisão numa veia do pulso donde extraíam uma certa porção de sangue.

   Assim o organismo produzia sangue novo e puro que iria melhorar a qualidade de todo o sangue em circulação.

   Sebastião Ricardo aprendeu o ofício de barbeiro e também a praticar a “medicina” dos barbeiros da altura; com os anos foi alargando os seus conhecimentos e a sua actividade de curandeiro.

   Quando já tinha muitos doentes para tratar, passou a dedicar-se exclusivamente à “medicina”.

   Atendia alguns doentes em sua casa e visitava outros nos seus domicílios, tanto na freguesia de Cacela, como na freguesia de Conceição, do concelho de Tavira, e também em parte do concelho de Castro Marim, deslocando-se para o efeito numa mula que possuía.

   Sebastião Ricardo tratava de doenças relativamente simples como abcessos, afitos, cólicas, constipações, chagas, diarreias, eczemas, enxaquecas, enterites, erisipelas, fraquezas, flatos, furúnculos, humores, hemorragias nasais, icterícias, inflamações, panarícios, picadas de insectos, papeiras, queimaduras, quebrantos, sezões, sarnas, terçolhos, tinha e ataques de vermes intestinais, como ténias e lombrigas. Para outras doenças mais complicadas ele recomendava o recurso aos médicos da medicina convencional, que nesse tempo eram poucos.

   Aos seus doentes aplicava clisteres, cataplasmas, compressas, fricções, emplastros, ligaduras, inalações de vapor, sangrias, sanguessugas, suadoros, ventosas, etc.

   Como remédios usava alhos, vinagre, água salgada, álcool, cerveja preta, caldos de galinha, mostarda, papas de linhaça, vaselina, óleo de fígado de bacalhau, tintura de iodo, pó de talco, xaropes, unguentos, tónicos, purgantes, pomadas, e chás de tília, de flor de laranjeira, de erva Luísa, de salva, de malvas, etc.

   Com a sua medicina alternativa ganhou fama, e os seus doentes tinham grande confiança no seu saber e na maneira delicada com que os tratava.

   A sua morte, com cerca de 50 anos, foi muito sentida por todos os que o conheceram e ficou na memória do povo durante muitos anos.

    

(texto publicado no Jornal do Algarve possivelmente em 1998)

 

 

Em "Memórias Escritas" de Fernando Gil Cardeira

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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

JOÃO ESTOLA, UM HOMEM POSSANTE DE CORAÇÃO BONDOSO


   João Fonseca Estola nasceu em Tavira cerca de 1861 e morreu por volta de 1935.

   Trabalhava de calafate no Sítio do Registo, na margem do Rio Gilão.

   Desde novo se distinguiu como homem forte, pois no seu trabalho manejava sozinho, com facilidade, grossos toros de madeira, os quais serrava manualmente para fazer e consertar barcos.

   Este homem ficou célebre pela  grande força física que tinha e ainda hoje o seu nome e os seus feitos são recordados por muitos tavirenses.

   Descrevo a seguir algumas das muitas façanhas que durante muitos anos ouvi contar sobre ele.

   Uma vez estava o Estola a trabalhar no seu estaleiro quando ali perto, três pescadores tentavam pôr a flutuar, sem conseguir, um barco que estava varado na margem do rio. Ele pediu aos três para se afastarem e sozinho conseguiu empurrar o barco para a água.

   Outra vez numa taberna cheia de gente, um "valentão" disse-lhe que apesar da sua fama de homem muito forte queria "pedir-lhe meças". O Estola disse-lhe. É para já. E agarrou o "valentão"  encostando-o à parede, com uma só mão. Manteve-o ali imóvel durante alguns minutos enquanto a assistência gozava com a fraqueza daquele seu contendor, que se esforçava em vão para se livrar da situação ridícula em que se encontrava.

   Uma noite ele pretendeu ver se um seu amigo estava no baile. O porteiro era um homem forte e disse-lhe, de forma arrogante, que não entrava ninguém sem pagar bilhete. O Estola retorquiu que não queria ir ao baile, só desejava ver se o amigo estava ali, mas o porteiro disse-lhe secamente que não. Em face disso ele pegou-lhe pela cintura com as duas mãos, levantou-o no ar  e colocou-o um pouco afastado da porta, onde o deixou como que petrificado. O Estola entrou no baile e saiu pouco depois. Voltou a levantar o porteiro no ar e a colocá-lo no local de onde o tinha tirado dizendo-lhe que não tinha encontrado no baile quem procurava.

   Apesar de ser muito forte o Estola tinha um carácter bondoso e muitas vezes utilizou a sua força para separar guerreias e apaziguar contendores.

   Era casado com uma mulher pequena e frágil chamada Ana e sempre houve entre os dois uma perfeita harmonia conjugal. Quando lhe diziam que, sendo ele muito forte e a mulher frágil, ela devia viver intimidada, retorquia a brincar. "A minha Anazinha é muito `senhora do seu nariz` e quando eu me comporto mal ela zanga-se e sobe para uma cadeira e dá-me bofetadas".

   No seu tempo os bombeiros estavam mal apetrechados e quando havia incêndios alguns populares e a tropa colaboravam com eles no combate ao fogo. O Estola quando "tocava a fogo" corria logo a ajudar os bombeiros. Casimiro Anica, no seu livro "Tavira e o seu Termo”, transcreve a comunicação feita pelo Administrador do Concelho para o Governador Civil relatando o grande incêndio ocorrido em 25-2-1891 na Fábrica da Moagem instalada no edifício do extinto Convento das Freiras da Atalaia, onde se dizia que " o mais esforçado elemento no combate ao fogo tinha sido o calafate João da Fonseca Estola que já noutras ocasiões arriscadas havia prestado o seu auxílio com todo o denodo”.

   O Estola era um homem muito forte, trabalhador, honesto, bondoso e capaz de praticar actos heróicos. Por tudo isto deve ficar para a posteridade, pelo que sugiro à Câmara de Tavira que o seu nome seja dado a uma das ruas da sua terra de preferência, na zona próxima dos estaleiros.

 

(texto publicado no jornal Postal do Algarve em Junho de 1998)

 

 

em, Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

 

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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

A CURA DE SANTA RITA

Tinha, há alguns tempos atrás, prometido ir publicando a estórias escritas pelo meu pai, Fernando Gil Cardeira, e recolhidas no livro "Memórias Escritas". Comecei com a "História Breve do Cinema de Cacela" e, se não me engano, "Um Casaco de Peles que não Chegou a Sê-lo" Como não encontrei a diskete onde tinha reunido estas estórias, escrevi-as a partir do livro. No entanto, por falta de tempo e porque não queria estragar o livro a scaneá-lo, nunca mais tinha postado nada. Hoje encontrei a dita diskete e recomeço a postar as estórias que considero muito importantes para compreender um tempo que já lá vai mas que é essencial para interpretar  o hoje, das zonas do sotavento algarvio compreendidas entre Tavira e Vila Real de Santo António e a sua evolução nos últimos 50 anos.

O livro "Memórias Escritas" esgotou rapidamente após a sua publicação e, portanto, só pode ser lido, em exclusivo aqui no "quinta".

 

  

Santa Rita é uma pequena povoação situada na parte Oeste da freguesia de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António.

   Desde data imemorável que ali se realiza a cura de Santa Rita. No seu início devia ser feita por uma só mulher que a idealizou e pôs em prática, com o decorrer dos anos essa mulher deve ter transmitido o seu saber a uma ou mais das suas filhas, pois as curas eram sempre feitas por mulheres e sempre da mesma família, que transmitiam de geração em geração o segredo das suas praxes. Contudo só algumas descendentes femininas faziam curas.

   Em Santa Rita nunca houve mais de três curandeiras ao mesmo tempo, mesmo havendo mais do que três descendentes mulheres.

   As curandeiras guardavam religiosamente o segredo da sua arte, mas sabia-se que para preparar o remédio elas utilizavam sal moído e outras substâncias sólidas, também moídas, e um líquido feito com a infusão de erva de Santa Maria. Esta erva é expontânea e abundante nesta região.

   O preparado era exposto durante algumas noites ao luar de um determinado mês.

   Faziam-se duas curas por ano, a primeira era feita na primeira Lua cheia de Maio e a segunda na primeira Lua de Junho. Porque as fases da Lua não coincidem com o início ou o fim de mês, por vezes só era considerada pelas curandeiras, como a primeira Lua cheia de Maio a primeira Lua cheia de Junho e então só nessa altura se fazia a primeira cura, sendo a Segunda em Julho.

   Em cada cura eram aplicadas três doses do remédio, uma dose um dia antes de ser Lua cheia, outra no dia de Lua cheia e outra no dia seguinte.

   Para fazer a cura a curandeira esperava sentada pelos pacientes, estes também se sentavam e deitavam a cabeça com o lado direito para cima, numa almofada que aquela tinha sobre os joelhos. A curandeira então com uma espátula, aplicava-lhe dentro do ouvido uma porção do remédio em pó. Em seguida com uma almotolia especial, deitava também dentro do ouvido algumas gotas da infusão herbanácea, colocando em seguida um pequeno tampão de algodão no ouvido. Depois a operação era repetida no ouvido esquerdo. Os pacientes então amarravam um lenço ou um bocado de pano a tapar os ouvidos, para que o remédio fizesse melhor efeito.

   O pagamento era feito após as três aplicações e não havia um preço estipulado para o efeito. As curandeiras recebiam o que as pessoas queriam dar e estas já sabiam por tradição ou conversas o que era costume pagar, pelo que não havia conflitos.

   Durante os dias de cura afluíam a Santa Rita muitas pessoas para esse fim vindas dos diversos pontos do Algarve, que utilizavam na sua deslocação comboio, autocarros, automóveis, bicicletas, carroças e bestas. Os que moravam longe aguardavam no local até completar a cura e dormiam nas carroças que os transportavam, ao relento ou alugavam quartos para dormir aos residentes locais.

   Era tão grande a afluência de pacientes, que as curandeiras tinham de arranjar uma ou duas colaboradoras para ajudar e mesmo assim, chegavam a fazer curas até próximo da meia-noite.

   Muitas pessoas acreditavam que as curas lhes faziam bem a diversas doenças que tinham. Entre as doenças tidas como mais susceptíveis de cura com aquele tratamento destacava-se a escrofulose ( uma espécie de tuberculose infantil). Contudo as pessoas residentes em Santa Rita e num raio de uns cinco quilómetros raramente se curavam.

   Uma descendente da família das detentoras do segredo foi residir para Faro e também aí fazia a cura, mas não teve êxito porque o povo só tinha como genuína a cura de Santa Rita.

   Nos dias da cura vivia-se em Santa Rita num ambiente misto de feira e festa. Havia bailes de tarde e à noite e também se instalavam barracas de quinquilharias, utilidades domésticas, doces, etc. Também havia sempre três ou quatro botequins onde mulheres, com uma pequena mesa e quatro cadeiras, vendiam suspiros, biscoitos e copos de aguardente de figo a troco de pouco dinheiro. Tudo isto atraía ali muita gente, dos mais diversos lugares, que não ia às curas.

   Nos últimos anos só uma senhora, de avançada idade, pratica a cura, e a pouco mais de uma dúzia de clientes fiéis, que acredita que só aquele tratamento contribui para aliviar os seu males.

 

em, Memórias Escritas, de Fernando Gil Cardeira

 
 

(artigo enviado para o Jornal do Algarve a 16 de Janeiro de 1997)

 

sinto-me:
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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

UM CASACO DE PELES QUE NÃO CHEGOU A SÊ-LO


 

 

            Aí por 1948 realizou-se em Lisboa a Exposição Suíça. Naquele certame podiam ver-se os muitos artigos que os suíços são capazes de fazer apesar da pequenez do seu país, da pobreza do seu solo e da escassez de matérias-primas.

            A Suíça, mesmo falando várias línguas, tendo várias religiões e estando dividida em vários cantões, tem mantido através dos séculos um estatuto externo de neutralidade e interno de paz e prosperidade, graças à actividade do seu Povo.

            Com a realização daquela exposição e doutras semelhantes noutros países, os dirigentes suíços pretendiam expandir a  venda dos seus produtos, nos diversos mercados ávidos de comprar, devido à escassez de manufacturas a que o mundo esteve sujeito entre 1939 e 1945, por motivo da 2ª Guerra Mundial.

            Para o acto inaugural daquela exposição foram convidadas as principais figuras políticas e militares e também da indústria, comércio e agricultura.

             O embaixador e a esposa receberam, como anfitriões, os convidados. Esta envergava um valioso e vistoso casaco comprido de peles, que causou a inveja de todas as senhoras presentes que, por curiosidade, lhe perguntaram de que animal era o seu casaco. Foi com surpresa que ouviram como resposta, que o casaco era feito de peles de toupeiras.

            Entre os convidados contava-se a esposa dum engenheiro algarvio, que tinha sido ministro da agricultura, deputado e membro da administração de diversas empresas e, ainda, abastado proprietário. Uma das suas propriedades situava-se na freguesia de Vila Nova de Cacela, e tinha aí um chalé onde vinha passar uns tempos com a esposa.

             A esposa sabia que naquela propriedade, bem como noutras da região, havia toupeiras e pensou mandar fazer um casaco igual ao da embaixatriz, com peles de toupeira daquela zona.

            Como residia habitualmente em Lisboa, contactou aí uma costureira, que se comprometeu a fazer o dito casaco, precisando para isso de cerca de 1200 peles de toupeira bem curtidas.

             A senhora resolveu levar em frente a ideia de mandar fazer o casaco e, depois de consultar o feitor da propriedade, optou por pagar 3$00 cada pele ou 2$50 por cada toupeira morta mas não esfolada. Este preço foi considerado aliciante, pois calculando que qualquer pessoa munida de uma enxada podia apanhar 7 ou 8 toupeiras por dia, o que dava um salário superior ao dum trabalhador rural, que nessa altura ganhava uns 15$00 por dia.

            O feitor contactou os meios locais de difusão – tabernas, barbeiros e sapateiros – para informarem os seus frequentadores de que, quem pretendesse apanhar toupeiras as podia entregar na propriedade da sua patroa, recebendo ali o preço acima indicado.

            A toupeira é um pequeno animal do tamanho aproximado de um rato, que vive em galerias subterrâneas que escava na terra com as patas dianteiras, que estão devidamente adaptadas para o efeito. Alimenta-se de insectos, vermes e cascas de raízes que encontra nessas mesmas galerias. A sua presença nota-se pelos pequenos montículos que forma à superfície do solo com a terra que retira das galerias, e que empurra para fora sem nunca sair à luz do dia. Por isso também lhes chamam ratos cegos.

            Muitas pessoas da zona, ao tomarem conhecimento do prémio pela apanha de toupeiras, aderiram a essa actividade. As toupeiras que durante milénios viveram, mais ou menos, sossegadas nas suas galerias, viram-se de repente perseguidas e chacinadas para satisfazer um capricho da moda.

            Durante vários dias, dezenas de pessoas percorreram as propriedades da região em procura de montículos de terra, que indicavam a existência de toupeiras e quando os encontravam escavavam com as enxadas as suas galerias até as apanharem.

             Em pouco mais de uma semana, forma apanhadas as cerca de 1200 toupeiras, pelo que acabou a perseguição e as sobreviventes puderam contar com muitos anos de vida sossegada.

            Esta história teve um epílogo frustrante, pois o casaco não chegou a ser confeccionado, porque o curtimento das peles não ficou em condições e a interessada desistiu da ideia com medo do ridículo de novo insucesso.

            Assim, foi em vão o sacrifício de 1200 toupeiras.

 

 

 em, Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

publicado por vítor às 04:17
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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

BREVE HISTÓRIA DO CINEMA DE CACELA E DO MAGO QUE FEZ PARAR A CHUVA

 

            Entre 1945 e 1948 havia todos os Domingos sessões de cinema em Vila Nova de Cacela.

            Estas sessões realizavam-se numa sala do rés-do-chão duma antiga fábrica de moagem desactivada e que foi adoptada para o efeito.

            Durante parte da semana eram afixados, junto da loja do João Trindade, os “quadros” com imagens do filme e também ali se podiam marcar lugar e comprar bilhetes. Também todos os Domingos à tarde era posta a funcionar uma aparelhagem sonora, através da qual se publicitava o filme a exibir e se emitia música, destacando-se um célebre swing ” que, passados mais de 50 anos,  ainda é transmitido com frequência por diversas estações de rádio.

            Cerca de meia hora antes do início das sessões começava, no próprio cinema, a venda dos bilhetes sobrantes e a admissão dos espectadores. Havia duas categorias de bilhetes, os mais baratos eram os da parte da frente e os mais caros, na parte de trás.

            Nos lugares mais caros instalavam-se as elites de Cacela, constituídas pela famílias Antunes, Cristos, Dragos , Rosas, Tamissas , Trindades e Tengarrinhas . Nos restantes lugares ficavam as camadas populares,

            Quando os filmes eram portugueses também costumava assistir o padre Brito, acompanhado da sua sobrinha. Este padre era o dono da fábrica de moagem e foi ele que a mandou adaptar a cinema e era um dos seus sobrinhos que fazia a projecção dos filmes.

            Ele não tinha paróquia e por vezes lamentava-se porque o padre Terramoto, da paróquia de Cacela, não lhe dispensava nenhuma missa para ele assim ganhar alguns escudos.

            A sua assistência aos filmes portugueses, acompanhado da sobrinha, devia-se ao facto de ela, apesar de jovem e aparentemente perfeita, ser completamente invisual. Assim, embora não visse as imagens, ouvia a linguagem dos artistas.

            Nesse tempo predominavam os filmes americanos de guerra, de amor e de cowboys. Os astros estrangeiros mais apreciados eram Clark Gable , Charles Chaplin , Errol Flynn , Humphrey Bogart , Spencer Tracy e Trone Power ; as estrelas estrangeiras mais queridas eram Bette Davis, Deborah Keer, Ingrid Bergman, Lauren Bacal, Mauren D`Hora, Olívia de Havyland e Vivien Leyg.

            Nos artistas portugueses destacavam-se Beatriz Costa, Hermínia Silva, Maria Matos, Amália Rodrigues, Milu, António Silva, João Vilaret, Vasco Santana e Vergílio Teixeira.

            Entre os melhores realizadores estrangeiros contavam-se Antonioni, Edmundo Lewis, Jonh Huston e Michael Curtis e entre os portugueses António Lopes Ribeiro e Leitão de Barros.

            Nessa altura Cacela não era abastecida de energia eléctrica e a iluminação pública era feita por candeeiros a petróleo. Para fazer cinema era necessário um gerador que, accionado por um pequeno motor a gasolina, fornecia a electricidade para iluminar a sala e para fazer funcionar a máquina de projecção.

            Durante as sessões notava-se sempre o barulho de assistentes, que liam as legendas para companheiros analfabetos.

            Os filmes de então eram muito recatados no aspecto moral, por isso ser prática a nível mundial e também devido à férrea censura a que o governo português os submetia. As estrelas não usavam saias acima do joelho e tanto os vestidos como a blusas eram de manga ou meia-manga, só os decotes é que por vezes eram generosos, mostrando uma pequena parte dos seios. Nunca os artistas, quer femininos, quer masculinos se despiam para fazer amor. Mesmo em cenas de praia os fatos de banho para homem eram sempre inteiros e com alças e os das senhoras semelhantes, mas de corte direito em baixo, tapando inteiramente as ancas. As cenas de amor não iam além de apertos de mão, abraços e beijos fugazes e simples. Para se chegar aos beijos havia uma encenação prévia, geralmente acompanhada e música, que preparava a assistência para o evento. Quando a cena do beijo demorava, alguns espectadores mais atrevidos gritavam. Atira-te a ela ou frases semelhantes. Quando os beijos se concretizavam havia sussurros e assobios de aprovação da parte de alguns assistentes.

            Por vezes a sessão era interrompida porque a fita se partia. Após este acontecimento havia protestos dos que afirmavam que, ao fazer a colagem, tinham encurtado mais do que o necessário o tamanho da fita.

            Em 1946 foram utilizados os meios publicitários do cinema, para anunciar uma sessão inteiramente preenchida com a actuação de um ilusionista.

            Nessa noite o tempo estava chuvoso, mas mesmo assim a sala esgotou.

            O ilusionista intitulava-se Conde de Aguillar e apareceu no palco de chapéu alto e vestido de casaca preta, calças de fantasia, camisa branca e papilon; a sua ajudante envergava um vestido de cetim vermelho com lantejoulas. O seu repertório era vasto e, com habilidade notável, o artista, com a colaboração da ajudante, fazia desaparecer vários objectos, que de seguida fazia aparecer com a sua magia.

            A assistência seguia com interesse a sua actuação, quando, para surpresa de todos, o Conde Aguillar interrompeu o seu trabalho e interpelou um assistente, que estava no meio da plateia com um guarda-chuva aberto. O artista perguntou-lhe qual o motivo de tão estranho procedimento, tendo aquele dito que o fazia porque chovia no local onde se sentava. Face a esta afirmação o prestidigitador falou para a assistência dizendo que tinha trabalhado em Bruxelas, Londres, Lisboa, Madrid, Roma e muitas outras cidades e era a primeira vez que via um espectador com um guarda-chuva aberto. Depois pediu-lhe para o fechar que faria um golpe de magia para a chuva parar. O visado obedeceu e o espectáculo prosseguiu o seu curso e terminou com o truque número um do seu repertório que consistia em fazer desaparecer uma pequena gaiola de arame com um canário.

            O espectador atingido pela chuva era o Dr. Campos Palermo, proprietário da farmácia local e não sei se depois de fechar o guarda-chuva ainda apanhou alguns pingos, ou se mudou de lugar. Só sei que assistiu ao espectáculo até ao fim sem se queixar.

            Cerca de 1950, o padre Brito vendeu o cinema e os novos proprietários continuaram com os mesmos espectáculos, mas, passados alguns anos, não resistiram à concorrência da televisão e o cinema fechou as suas portas para sempre.

 

Em, Memórias Escritas, de Fernando Gil Cardeira.

           

 

 

 

publicado por vítor às 01:19
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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

Como não será difícil de perceber este homem é o meu pai. Como também será fácil de perceber, este foi o homem que mais amei na minha vida (os meus filhos, que eu amo tanto quanto o amo a ele, são ainda crianças). Quando ele nos "deixou" eu passei a transportar a sua alma e passámos a ser um só no mesmo corpo. É bom estar sempre com ele e as parecenças físicas entre ambos ( a acentuar-se com a idade) fazem-me sentir que sou ele nunca deixando de ser eu.

 

Como a inspiração  tem andado arredia vou começar a partilhar convosco algumas das extraordinárias histórias que o meu pai deixou para todos e que estão recolhidas no livro "Memórias Escritas"  que relatam cruzamentos de vidas que se foram enredando, fundindo e chocando, por meados do século XX  nas velhas  terras de Cacela, Conceição, Cabanas, Tavira e outras.

 

Hoje deixo-vos uma pequena biografia com os defeitos que têm testemunhos intensamente apaixonados. Retirem o excesso de ...

 

 

Nasceu na povoação de Cabanas de Tavira em 1926, à beira da ria. Ainda criança mudou-se  para o barrocal da freguesia de Conceição de Tavira onde se fez homem. Terceiro filho de uma família de agricultores/rendeiros não segue a vida dura dos trabalhos do campo devido a uma poliomielite contraída nos primeiros anos de vida, que lhe afectará significativamente uma perna até ao fim da vida.

Concluída brilhantemente a instrução primária, e não tendo a família condições económicas para lhe proporcionar a continuação dos estudos, inicia-se, nos primórdios dos anos 40, como aprendiz de alfaiate em Tavira. Mais tarde estabelece-se por conta própria na Venda Nova, em Vila Nova de Cacela, mudando-se depois para Lisboa  para trabalhar no mesmo ofício.

Na grande cidade toma contacto com as lutas operárias contra o regime fascista e conhece a brutalidade da máquina repressiva do Estado Novo. Jovem idealista, imbuído do espírito de liberdade e justiça, abraça as causas da oposição ao regime e os valores do socialismo democrático.

Volta ao Algarve e instala-se como comerciante na povoação de Conceição de Tavira, na sua rua principal, a própria estrada nacional 125. Primeiro como vendedor de rádios e depois como comerciante de fazendas e miudezas associadas. Percorre ainda uma vez por semana, num carro de mula (por acaso puxado por um macho), algumas povoações vizinhas vendendo os seus artigos. Casa com Maria Rita da Conceição Baptista e tem dois filhos varões.

 Em Conceição, local privilegiado, encruzilhada de caminhos e vidas, observa, participa, interessa-se, e discute as mudanças na sua região, no país e no mundo. Continua a sua luta contra o regime fascista organizando a participação da oposição local nas eleições, ajudando gente perseguida a passar para Espanha, distribuindo livros clandestinos, intervindo em comícios, ajudando camaradas presos, etc , etc . Será por isso muitas vezes incomodado e intimidado pela polícia política PIDE/DGS. Não desiste porém da sua luta pela democracia.

É durante décadas correspondente do jornal Diário Popular onde escreve regularmente artigos sobre o Sotavento Algarvio. A par disto vai escrevendo e anotando por tudo o que sejam papéis apontamentos sobre a vida e a história das gentes locais.

A Revolução de  25 de Abril de 1974 enche-o de alegria e empenha-se entusiasmado na implementação do regime democrático. Nesses tempos conturbados é presidente da Junta de Freguesia de Conceição de Tavira e durante anos deputado na Assembleia Municipal de Tavira.

O bichinho da escrita e da investigação etno-histórica vai-se tornado cada vez mais forte em detrimento da actividade política e é nesta área que investe os últimos anos da sua vida. Participa em congressos, em palestras, em programas de rádio, escreve compulsivamente para jornais, participa em livros colectivos, etc , etc . Chega mesmo, depois de reformado, a montar um escritório aberto para a rua onde recebe os amigos e outras pessoas para conversar durante o dia. À noite dedica-se à escrita.

Morre no dia 29 de Janeiro de 1999 de complicações cardio-respiratórias com tanto ainda por fazer…

Postumamente é editado pela família o livro “Memórias Escritas” que retrata vidas simples e extraordinárias, que nos transportam a um mundo antigo que se esvai mas que nos falam  de esperança e lançam sementes no futuro complexo que nos espera. São uma pequena amostra do seu labor. Muito mais há para publicar. Como o poeta, assim se foi da morte libertando…

 

publicado por vítor às 16:42
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