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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013

últimos

 

Já tem nome: últimos. Será o dito.
Continuo a saga pelos caminhos inconclusivos do inferno...

Quando morremos, nunca morremos sós. O nós não existe apenas na nossa alma. Estilhaços da nossa consciência, ou seja lá o isso for, exista ou não infinitude dos tempos, alojam-se nos outros e contaminam existências que vivem as suas próprias espiritualidades. As suas sobrevivências no efémero que transportamos. Cada um percorrendo caminhos autónomos, carregando múltiplas identidades e confrontando condicionalismos diversos, forma-se, constitui-se e constrói-se a partir dos avatares que circulam na proximidade oceânica da vida. Às vezes na contramão do devir. Alguns constituem-se somente da bebedeira dos outros. Essa embriaguez que é percecionada, para lá da realidade, como se a realidade fora. Cada um entende a si mesmo e o que o é possível receber do espaço extrassensorial de diversas maneiras. Inadvertidamente, o fora e o dentro confundem-se e confundem-nos para lá das circunstâncias. O eu múltiplo existe e subsiste fora do ser que o asperge nas palavras dos outros. Fora de mim, de nós, navega, argonauta oculto na penumbra de um plasma iniciático, ecrã onde se projetam e reproduzem as sombras dos sonhos embrionários, paradoxais, um eu desconhecido, arquipélago da consciência deslaçada desejando o todo numinoso. Inatingível. Muitas vezes, a maior parte de mim acontece fora de mim. Na periferia dos companheiros que viajam na perplexidade da planície habitada. É por isso que a morte acarreta uma derrocada em dominó dos que nos acompanham na efémera caminhada. Hoje e ontem e ainda mais para lá de nós. Quem não tem medo da morte não investe na vida. A vida é um embuste para os que se libertam da ameaça da morte. Os que a temem e reverenciam desenvolvem toda uma panóplia de estratagemas, ações e omissões para a ocultarem. Nestes, os artistas são os mais engenhosos mas, recorrentemente, os piores sucedidos. Ocultam a morte como ninguém…

A foto é de um amigo que já partiu. Foi personagem d`"Uma Mulher Disponível" e da minha vida.

sinto-me:
publicado por vítor às 21:18
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Domingo, 21 de Julho de 2013

almadrava atuneira

 
Eu andava por aqui quando as filmagens se realizaram. Talvez com 3 anos. Depois descobri o filme quando entrei na FCSH, na receção aos caloiros. Cravei logo o António (Loja Neves) do Cine Clube Universitário para o trazer a Tavira. Eu o Mário Rosário e o António organizámos uma mostra de cinema em Conceição e este filme foi o grande acontecimento do ano, a primeira vez que era apresentado na terra que o pariu. Com o saudoso Zé Martins atrás da máquina de projetar fizémos sessões contínuas do filme em Conceição e em Cabanas. Havia sempre alguém que aparecia para o ver e os cabanense e os conceiçanenses não se cansavam de o ver, uma vez e outra. Muita gente via os seus familiares e amigos que já não lhes faziam companhia. outros reviam, ou viam pela primeira vez, entes queridos que mal tinham conhecido ou nunca tinham visto. Foi uma loucura. Um acontecimento hierofânico inesquecível...
Infelizmente perdi o cartaz da mostra que eu e o Mário tínhamos feito para o evento. Tudo à mão que computadores era coisa que ainda não tinha chegado ao SuL...
Este filme extraordinário de António Campos está no Museu do Homem, em Paris, como património humano de qualidade estética e valor antropológico únicos.

Toda a Armação da Abóbora, que é vista neste filme, desapareceu com um forte temporal nos anos 60. Nada resta nos areais da ilha...

sinto-me:
publicado por vítor às 02:14
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Quinta-feira, 29 de Março de 2012

a leste de tavira

 

Agora, pelos caminhos pedregosos da Antropologia. O Algarve como nunca o viu, como um romance... Descarregamento gratuito. Capa ainda sujeita a retoques...

 

Dormiu 22 anos numa gaveta. Batida numa velha máquina de escrever. Resolvi-me, finalmente. a passá-la para o computador. Noites à lareira a reviver o passado. Duplo passado: o destas terras do fim do mundo e o meu. Cá está o resultado em mais uma edição Cativa.

sinto-me:
publicado por vítor às 15:28
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Domingo, 1 de Agosto de 2010

descansado*

 

Fui hoje, sob - que mais parecia sobre -, um sol escaldante, "acompanhar" o meu amigo Mané até ao cemitério da Conceição. Há alguns anos que pouco falávamos. No final da adolescência, eu saltei do seu barco, ou melhor, foi ele que saltou do nosso barco, que abandonou a navegação à vista, e enveredou por uma rota que nos trouxe até aqui. Eu vivo e perturbado. Ele defunto e sereno.  O contrário das suas vidas. Ele caminhando à beira do precipício. Gozando o medo dos outros e sua própria vertigem: o suicídio lento e doloroso da embriaguez permanente. Da festa sem fim. Vivia sozinho desde cedo. A morte prematura do pai e a migração da mãe (com a irmã) para a Suíça dava-nos, egoístas, um fantástico covil para as piratarias da juventude. Depois de noites memoráveis pela praia e os bares de Cabanas, recolhíamos a sua casa até a madrugada desembocar no dia. Noites de muita loucura. Noites incontáveis. Eu,e outros, sabendo que a festa não é eterna fomos entrando, aos poucos, na vida séria. O Mané continuou o seu percurso até ao fim.

Fininho, de rabo de cavalo longo, sempre de negro era das figuras mais carismáticas de Cabanas. Sobretudo da noite. Com uma alegria transbordante e um humor inteligente, seco e corrosivo, ninguém lhe ficava indiferente. Não havia visitante da povoação que não o viesse a conhecer. A sua vida intensa e no fio da navalha não o impediram de trabalhar sempre. Como barman (sic), empregado de cozinha, empregado de mesa e outros ofícios ligados ao turismo. Namorador e apreciador da beleza feminina, o amor de uma austríaca (conhecida na noite local), leva-o à Áustria onde vive algum tempo trabalhando em restaurantes. Volta revoltado com vitória da extrema direita. A degradação das bordas do precipício levam-no, cada vez mais, a aproximar-se do fundo. Uma amiga minha tinha-o visto há poucos dias numa cadeira de rodas empurrada pela austríaca. Pensei ir vê-lo à "nossa casa". Tinha medo de o encontra no limbo. Ontem na feira da Conceição, e na noite de baile e cerveja que lhe está associada, soube da notícia. O Mané tinha partido para a terra de onde veio toda a gente e para onde toda a gente vai.

No cemitério, que une os mortos de Cabanas e Conceição, está parte da minha vida. Uns sairam no final da cerimónia. Outros ficaram. O Mané, com uma cerveja numa mão, coloca-me a outra no ombro, contorce-se ligeiramente e solta uma gargalhada que ecoará para sempre nas terras da ria.

 

*Nestas terras do Sotavento, quando alguém refere um falecido, coloca o adjetivo "descansado" antes do nome do referido não vá o dito vir incomodar o referente.

 

PS: Por ironia do destino, quando me meti no carro para ir "acompanhar" o Mané, liguei o rádio e começou a tocar a música que acima inseri. Os Doors acompanharam-nos e acompanham-nos para sempre.

música: a dita
publicado por vítor às 18:03
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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

uma mulher disponível

 

Não tinha pensado nisso. A avenida estendia-se, rude e crua, até ao fim do mundo. Alguns candeeiros iluminavam o nevoeiro morno do Levante. As minhas pernas pareciam moles e frouxas, caminhava cambaleando no alcatrão esponjoso. Nunca tinha pensado nisso: bebia para ocultar a timidez.

Àquela hora da madrugada irresponsável, o calor mantinha-se à superfície das coisas. O ar irrespirável alimentava as insónias dos entes há muito retirados nos leitos burgueses. Nos lençóis encharcados de lama pestilenta. O maléfico soprar das aragens desérticas destrambelhava as mentes sóbrias.

Avanço ao encontro da imensidão da noite. A experiência diz-me que no fundo da avenida, junto ao porto, um bar ilumina as trevas. É o último reduto da loucura ambulante antes do Sol misturar tudo na intensa luz do Levante.

Aquele homem que percorre lentamente a borda da Ria é um poeta. Como todos os poetas procura a embriaguez do abismo profundo e inatingível. Generoso e sem retorno. É uma caminhada dolorosa e sem destino que engole o próprio caminhante. Uma autofagia que vai destruindo o sujeito e o objecto. Uma boca hiante a partir da qual o corpo se vira do avesso, desaparecendo nas vísceras  tetónicas  do inferno emergente. Uma longa batalha entre quem come e é comido, sendo que um e outro são a mesma entidade. Entre o destino e a razão.

Enquanto mija atrás de um contentor de lixo, uma figura mágica espreita por entre os restos nauseabundos. Os excrementos sociais que preencheram as ânsias medíocres da humanidade.

Por deus, é uma mulher!

De olhos muito abertos e uma boca escancarada e vermelha, concupiscente, fita o poeta. Toda ela é desejo e vontade de emergir da putrefação contida.

O poeta sacode a pila e não resiste aos encantos da visão miraculosa. Retira-a cuidadosamente do caixote pestilento e verifica, surpreso, que a mulher é jovem, durinha, leve e bonita. E está nua.

Mãe, telefona-me mãe!, grita na noite incompleta. Tu e eu somos os maiores que as estrelas envolvem. Tu, a melhor mãe que os tempos conheceram e experimentam. Eu, o maior poeta vivo que risca a face do planeta. Telefona-me mãe!, ecoa nas profundas cicatrizes da existência, num rugido lancinante e triste.

Caminha, agora, com a jovem ao colo. Leve como ar de Verão. Leve como algumas palavras que nunca são ditas. A timidez irrompe das entranhas instáveis e, no lento processo de  auto-fagia, nunca se sabe se vem de dentro ou de fora. É preciso aplacar-lhe os propósitos misantropos que atropelam a alma.

 

sinto-me:
publicado por vítor às 17:01
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Domingo, 11 de Abril de 2010

vens lindo

 

Depois de ter encontrado o Rui em Tavira (vide último post) encontrámo-nos em sua casa à tarde para afinações na capa e no miolo do seu livro último," Poemas do Banco de Trás. Também lá compareceu, como é óbvio, o paginador e gráfico de serviço, o Nuno Viana. Nas Edições Cativa é assim que se trabalha: autor, editor e gráfico, em conjunto, edificando a obra que se anuncia. A tarefa, ou melhor as tarefas, são extremamente complexas e morosas e saímos dali já ao fim da tarde. O trabalho, é claro, foi acompanhado com bastante cerveja e muitos cigarritos.Fomos  em seguida para Cabanas retirar o motor e o panado do imperador da Ria, essa nave lendária que dá pelo nome de Hipantropias. O Inverno especialmente rude deixou estragos no casco da embarcação e é preciso virá-lo, subi-lo para a areia seca  e proceder aos reparos e pinturas necessárias. Originalmente construído em madeira, este Doris saído da mítica oficina do mestre Cagones, o último construtor de barcos de madeira em Tavira, apresenta já hoje o fundo coberto por fibra de vidro. Esta, sendo mais fácil de trabalhar do que a madeira, é, também, mais frágil aos encontros indesejáveis com os fundos rochosos que rasgam a casca sintética sobre (neste caso sob) a madeira original. Dificuldades em encontrar calafates e outro mestres de construção e reparo naval na tradicional madeira, levaram o Rui  a reparar o fundo do Hipantropias com o material mais comum nas embarcações de hoje e com mais técnicos disponíveis. Para além do fundo, o barco apresenta ainda as velhas madeiras originais  do mestre Cagones.

Montados o motor , o panado, os remos e outras partes soltas da nave na minha pick up, deslocámo-nos ao Adriano para beber uma cerveja. Lá chegados encontrámos o amigo Greg e o Baptista e juntámo-nos a beber e a petiscar. Esquecida estava a ideia inicial: beber uma cerveja. O Greg, um lobo do mar inglês que atravessou o Atlântico no seu catamaram, fugido da Venezuela vá-se lá saber porquê, e aportou em Cabanas há já uns anos, falava em Inglês e castelhano, o Baptista, condutor de barcos que levam turistas para a ilha, comunicava em português e castelhano, o Rui, à medida que o tempo passava e as cervejas iam enchendo a mesa, utilizando as línguas referidas e atalhando o francês, eu, que em línguas faladas sou um nabo, lá ia comunicando em português e castelhano, que domino razoavelmente, e à medida que a noite avançava,   aventurando nas línguas de sir Alex Fergunsen e Cantona. Chegou então um pescador que venceu um cancro para continuar a ser o melhor pescador da costa do Sotavento. Já não sei em que língua comunicava. A noite avançava e no meu telemóvel caiam mensagens e chamadas. Temia o pior quando chegasse a casa.Quando finalmente a companhia foi desfeita, não sei bem em que circunstâncias nem a que horas, e me dirigi para casa cautelosamente, fui recebido, para meu espanto, com  sorrisos por todo o lado e com a sempre agradável expressão,  que qualquer homem, ainda por cima já entradote, sempre adora, "vens lindo"!

sinto-me:
publicado por vítor às 22:28
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Domingo, 14 de Junho de 2009

um domingo como outro dia qualquer

 

De Santa Luzia a Cabanas em canoa. Toda a manhã percorrendo canais e aportando em ilhas e praias espantosas para dar uns mergulhos. Final da viagem no restaurante da Noélia em Cabanas. Um dos melhores restaurantes de Portugal (excepto em Julho e Agosto).

 

Final da tarde: um dramático jogo de Padel. 2-1, eu e o meu amigo Guapo só por  incontornável falta se sorte carregámos para casa a amarga derrota.

 

Com mais uns Domingos assim, perco a barriguita e vou a Londres em 2012.

sinto-me:
publicado por vítor às 23:21
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Sábado, 25 de Abril de 2009

Amália revisitada

 

 

Quando, num Verão quente e seco, no fundo do tempo dos anos 70, ali, na esplanada do  restaurante Peixinho em Cabanas, junto à Ria Formosa, a ouvi pela primeira vez ao vivo, toda a penugem se me  eriçou. Num impulso de adolescente, no fim do espectáculo,  dirigi-me  a ela para a beijar. Sorrimos e guardei aquele beijo para sempre. Agora, ao passar pelo blogue do meu amigo João, e deparar com esta monumental interpretação, senti o mesmo levitar da penugem. A mesma vontade de beijar.

 

meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


[Alexandre O'Neill, Alain Oulman - Amália]

 

Versão  de Nuno Gonçalves (The Gift) e Fernando Ribeiro (Moonspell) e voz de Sónia Tavares.

 

sinto-me:
música: A Gaivota
publicado por vítor às 21:23
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

os animais da cabeça (cena II)

 

 

Trabalho gráfico e audiovisual de Adão Contreiras, um dos algarvios que o ALLgarve censura por omissão.

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publicado por vítor às 21:57
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Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Um Verão Tardio

 

O Verão no Algarve começa em meados de Maio. Este ano veio mais tarde. Depois de um Maio frio e chuvoso, só hoje fez a sua aparição nestas paragens do Sotavento. Chegou sem se anunciar e no esplendor da sua força: 34 graus à sombra pelas 15 horas. Eu que gosto de todas as estações recebi-o com entusiasmo. Só que... tinha já decidido acabar com os matagais  e as ervas secas em zonas da quinta que podem constituir um  perigo em caso de incêndio.

 

Faz agora quatro anos que tive que evacuar a família no intervalo do Portugal-Holanda do euro 2004, quando o fogo desceu da serra quase chegando ao mar. Eu resisti até ao nascer do dia empapando as terras à volta de casa. Felizmente o fogo manteve-se respeitosamente afastado e não chegou à  casa. Nesse ano  a Serra algarvia ardeu durante todo o escaldante Verão. Depois desse susto não posso descuidar-me.

 

A seguir a um almoço frugal de rabanetes, tomates e cebola apanhados na horta, misturadas a uma lata de atum, meti mãos à obra. Montei o meu velho Deutz, D 4006,  de 1970 e penteei a terra enquanto o Sol escaldava. Quando passava por debaixo de uma oliveira, um ramo atrevido riscou-me  um  sulco de sangue  no  pescoço, do couro cabeludo até às costas. A compensação foi que andava com umas dores na coluna há umas semanas que, com os saltos e os solavanco da máquina, desapareceram completamente. Massagens gratuitas e eficazes...

 

Ao fim da tarde deliciei-me com um magnum de amêndoa numa esplanada com as  serenas águas da  Ria Formosa a meus pés. Uma tarde espantosa antes da invasão que não tarda.

 

 

sinto-me:
música: Summertime
publicado por vítor às 23:12
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