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Quinta-feira, 17 de Março de 2011

um mestre pedreiro, uma morte inesperada e o erro do escritor

O Zé Alqueva é o melhor pedreiro que conheço. As obras cá da quinta são todas feitas por ele. Há uns anos, desenhei uma casa e apresentei-lha para a construirmos. É a belíssima casa de turismo rural que temos aqui na Cativa. Com uns reparos do mestre, lá foi, aos poucos, nascendo uma casa de habitação onde antes era o armazém agrícola do meu avô. Construímos é uma forma de dizer: construiu-a o Zé, que eu tenho o meu tempo ocupado a trabalhar para as coisas da mercearia. O mestre Alqueva é um perfecionista. Usa os materiais tradicionais como ninguém e gosta do que faz. Às vezes irritava-se com as minhas sugestões patéticas ou com os materiais que eu arranjava para tornar a casa (achava eu) mais bonita. Curiosamente, e para meu espanto, não levantou objeções a chaminé da lareira que desenhei e que se ergue ao céu. Já com os azulejos da cozinha o homem atirou-se ao ar: cada um é uma peça única no tamanho, na espessura e na textura, o que acarretava um trabalho brutal e moroso de colocação. Um dia, cheguei a casa e encontrei-o a chorar convulsivamente sem conseguir pronunciar uma palavra. Pensei que lhe tivesse morrido um filho, a mulher, o pai ou a mãe, mesmo sem saber se os tinha. Quando, passado um bom bocado, conseguiu balbuciar coisa que se entendesse, disse-me, aos repelões, que tinha morto a Perdida. Atropelou-a quando fazia marcha atrás com o seu pequeno camião. A Perdida era uma cadela. Como o próprio nome revela, apareceu, sem se saber de onde, na Quinta e de cá mais não saiu. Afeiçoámo-nos a ela e, mesmo já tendo um cão (temos sempre um cão, às vezes dois, mas sempre machos pelo que a Perdida seria uma exceção na linhagem dos guardadores cá do sítio), ficámos com ela. O mestre Alqueva era o que mais tempo passava com ela. Os moradores da casa e donos da aparecida saíam pela madrugada e só regressavam pelo final da tarde. A hora do almoço era o grande momento de convívio. Comiam juntos e partilhavam mesmo as refeições. No final davam um passeio entre as laranjeiras. Homem prático, em lágrimas, pegou no cadáver a esvair-se em sangue, colocou-a na caixa do camião e enfiou-a num contentor do lixo. Depois da morte tudo é lixo, disse-me, filosoficamente, ante o meu desagrado com o desfecho. Eu, um sentimental e protetor da saúde pública, costumo dar-lhes (aos meus gatos, cães e galinhas) um funeral mais condigno. Abro uma cova à enxadada, deposito o amigo docemente no fundo e cubro-o com a terna terra da Quinta. Vem este longo confuso texto a propósito de uma certa resposta a uma certa e determinada, e inconveniente, questão que um dia fiz ao meu-mestre-de-obras. Zé!, porque é que não arranjas uma boa equipa e, com a tua arte e sabedoria, não te pões a ganhar dinheiro a sério construindo casas e não te deixas de biscates para a vizinhança? Respondeu-me assertivo e sintético. Eu sou um homem estranho! Nunca mais falámos no assunto e regressámos aos interessantes temas de antanho: mulheres boas e futebol. A supra citada e certeira resposta a uma, também referida, questão inconveniente, deveria ser a deixa às constantes, e seguramente inconvenientes, questões dos meus amigos leitores; e refiro leitores, porque a maior parte dos meus amigos nem lê nem sabe que eu escrevo; que já navegaram nas minhas palavras. Então, quando é que publicas essas escrituras ocultas? Quando é que te podemos arrumar na estante? Se não o faço é porque achariam a resposta um contra senso. Não é o escritor um gajo estranho?

PS: O Zé Alqueva tem uma escrita impressionante, única e idiossincrática, como se quer para quaisquer escritores. Nos papéis que me entregava à sexta-feira para justificar o pagamento, chegava a dar três erros ortográfico na mesma palavra. Por exemplo: “sementu” em vez de cimento ou “cervisu” em vez de serviço. E o que é que isso interessa? Não reparou o escriba das presentes palavras que num poema já blogado e facebucado vinham três, digo três, arreliadoras burradas. Já agora, para o envergonhar, aqui vão elas: embriaguês, perconceito e, vá lá, equilibrio ( fosga-se, o que tive de lutar contra o corretor para as escrever assim). Viva o erro ortográfico, ele representa para a escrita o que o nu representa para a pintura (só para chatear, estive quase a pôr assento, digo acento, agudo no nu).

sinto-me:
publicado por vítor às 21:45
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Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

viva la muerte

 

 
JN
28 Fevereiro 2010
 
 
   
 
 
 
 
                                             
 
 
"Viva la muerte"
 
"Viva la muerte"
<input ... >

Só nos faltava esta: uma ministra da Cultura para quem divertir-se com o sofrimento e morte de animais é... cultura. Anote-se o seu nome, porque ele ficará nos anais das costas largas que a "cultura" tinha no século XXI em Portugal: Gabriela Canavilhas. É esse o nome que assina o ominoso despacho publicado ontem no DR criando uma "Secção de Tauromaquia" no Conselho Nacional de Cultura. Ninguém se espante se, a seguir, vier uma "Secção de Lutas de Cães" ou mesmo, quem sabe?, uma de "Mutilação Genital Feminina", outras respeitáveis tradições culturais que, como a tauromaquia, há que "dignificar".

O património arquitectónico cai aos bocados? A ministra foi ali ao lado "dignificar" as touradas. O património arqueológico degrada-se? Chove nos museus, não há pessoal, visitantes ainda menos? O teatro, o cinema, a dança, morrem à míngua? Os jovens não lêem? As artes estiolam? A ministra foi aos touros e grita "olés" e pede orelhas e sangue no Campo Pequeno. Diz-se que Canavilhas toca piano. Provavelmente também fala Francês. E houve quem tenha julgado que isso basta para se ser ministro da Cultura...

sinto-me:
publicado por vítor às 21:46
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Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Touros e Televisão

 

 

Nunca esquecendo que Nietzsche enlouqueceu por ver um cocheiro chicotear um cavalo na cidade de Milão, no... século XIX...

 

 

Enquanto a TVE deixou de transmitir touradas fazendo recuar a barbárie, a RTP promove de forma gratuita  a tortura brutal de animais. No país onde mais aficionados existem, Espanha, esta decisão significa a perda de uma preciosa fatia das audiências. Em Portugal, onde as audiências de touradas são residuais, a "nossa" televisão prossegue no caminho da obscuridade. Porque não transmitem também luta de cães e de galos? Teriam certamente mais audiências. Ou se juntam a "canais televisivos" dos Estados Unidos que  pretendem transmitir os últimos momentos dos condenado à morte?


(texto postado no ano passado, pela mesma altura)


Tenho vergonha da televisão pública nestes momentos. Ainda por cima com o meu dinheiro, com o dinheiro dos portugueses.

 

Estarei sempre com aqueles que resistem. Mesmo que para isso recorram a métodos contrários à lei...

 

Na  TVI vai-se ainda mais ao fundo do nojo. Anuncia-se a exibição de uma criança de 11 anos para gáudio da turba. Manipulada por um pai torturador de animais, um tal de Moura, apresenta-se ao sacrifício como  oferta exótica num circo de dementes.

sinto-me:
publicado por vítor às 21:14
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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

UM CASACO DE PELES QUE NÃO CHEGOU A SÊ-LO


 

 

            Aí por 1948 realizou-se em Lisboa a Exposição Suíça. Naquele certame podiam ver-se os muitos artigos que os suíços são capazes de fazer apesar da pequenez do seu país, da pobreza do seu solo e da escassez de matérias-primas.

            A Suíça, mesmo falando várias línguas, tendo várias religiões e estando dividida em vários cantões, tem mantido através dos séculos um estatuto externo de neutralidade e interno de paz e prosperidade, graças à actividade do seu Povo.

            Com a realização daquela exposição e doutras semelhantes noutros países, os dirigentes suíços pretendiam expandir a  venda dos seus produtos, nos diversos mercados ávidos de comprar, devido à escassez de manufacturas a que o mundo esteve sujeito entre 1939 e 1945, por motivo da 2ª Guerra Mundial.

            Para o acto inaugural daquela exposição foram convidadas as principais figuras políticas e militares e também da indústria, comércio e agricultura.

             O embaixador e a esposa receberam, como anfitriões, os convidados. Esta envergava um valioso e vistoso casaco comprido de peles, que causou a inveja de todas as senhoras presentes que, por curiosidade, lhe perguntaram de que animal era o seu casaco. Foi com surpresa que ouviram como resposta, que o casaco era feito de peles de toupeiras.

            Entre os convidados contava-se a esposa dum engenheiro algarvio, que tinha sido ministro da agricultura, deputado e membro da administração de diversas empresas e, ainda, abastado proprietário. Uma das suas propriedades situava-se na freguesia de Vila Nova de Cacela, e tinha aí um chalé onde vinha passar uns tempos com a esposa.

             A esposa sabia que naquela propriedade, bem como noutras da região, havia toupeiras e pensou mandar fazer um casaco igual ao da embaixatriz, com peles de toupeira daquela zona.

            Como residia habitualmente em Lisboa, contactou aí uma costureira, que se comprometeu a fazer o dito casaco, precisando para isso de cerca de 1200 peles de toupeira bem curtidas.

             A senhora resolveu levar em frente a ideia de mandar fazer o casaco e, depois de consultar o feitor da propriedade, optou por pagar 3$00 cada pele ou 2$50 por cada toupeira morta mas não esfolada. Este preço foi considerado aliciante, pois calculando que qualquer pessoa munida de uma enxada podia apanhar 7 ou 8 toupeiras por dia, o que dava um salário superior ao dum trabalhador rural, que nessa altura ganhava uns 15$00 por dia.

            O feitor contactou os meios locais de difusão – tabernas, barbeiros e sapateiros – para informarem os seus frequentadores de que, quem pretendesse apanhar toupeiras as podia entregar na propriedade da sua patroa, recebendo ali o preço acima indicado.

            A toupeira é um pequeno animal do tamanho aproximado de um rato, que vive em galerias subterrâneas que escava na terra com as patas dianteiras, que estão devidamente adaptadas para o efeito. Alimenta-se de insectos, vermes e cascas de raízes que encontra nessas mesmas galerias. A sua presença nota-se pelos pequenos montículos que forma à superfície do solo com a terra que retira das galerias, e que empurra para fora sem nunca sair à luz do dia. Por isso também lhes chamam ratos cegos.

            Muitas pessoas da zona, ao tomarem conhecimento do prémio pela apanha de toupeiras, aderiram a essa actividade. As toupeiras que durante milénios viveram, mais ou menos, sossegadas nas suas galerias, viram-se de repente perseguidas e chacinadas para satisfazer um capricho da moda.

            Durante vários dias, dezenas de pessoas percorreram as propriedades da região em procura de montículos de terra, que indicavam a existência de toupeiras e quando os encontravam escavavam com as enxadas as suas galerias até as apanharem.

             Em pouco mais de uma semana, forma apanhadas as cerca de 1200 toupeiras, pelo que acabou a perseguição e as sobreviventes puderam contar com muitos anos de vida sossegada.

            Esta história teve um epílogo frustrante, pois o casaco não chegou a ser confeccionado, porque o curtimento das peles não ficou em condições e a interessada desistiu da ideia com medo do ridículo de novo insucesso.

            Assim, foi em vão o sacrifício de 1200 toupeiras.

 

 

 em, Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

publicado por vítor às 04:17
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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

Touros e televisão

Example

 

Enquanto a TVE deixa de transmitir touradas fazendo recuar a barbárie, a RTP promove e transmite a tortura gratuita de animais. No país onde mais aficionados existem, Espanha, esta decisão significa a perda de uma preciosa fatia das audiências. Em Portugal, onde as audiências de touradas são residuais, a "nossa" televisão prossegue no caminho da obscuridade. Porque não transmitem também luta de cães e de galos? Teriam certamente mais audiências. Ou se juntam a "canais televisivos" dos Estados Unidos que  pretendem transmitir os últimos momentos dos condenado à morte?

sinto-me:
publicado por vítor às 14:11
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Domingo, 1 de Julho de 2007

Animal irracional




Sou dos que contribuo para a manutenção da televisão pública em Portugal. Contribuo e concordo que todos devemos contribuir. É a televisão de todos nós.

Agora, lamento profundamente que a minha contribuição ajude a levar à cena espectáculos indecentes, bárbaros e repugnantes como este que se repete todos os anos no início de Verão.

A imagem é chocante! Coloquei-a mesmo para chocar! Eu sou pela vida!

(Por muito menos enlouqueceu Nietzsche )
publicado por vítor às 16:29
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