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Domingo, 13 de Julho de 2008

Uma Epifania Anunciada

 

 

Era uma epifania anunciada. Mesmo assim senti-me como Moisés perante a sarça- ardente, na península do Sinai. Deus chegou, como o anunciado, às 21 e 40. Nunca falou directamente à assembleia. Envolveu-a com parábolas, hipérboles, analogias e outras piruetas retóricas tão bem do agrado dos crentes. Deus antigo, não sorriu. Deus que sabe que só a Sua presença basta, não fez nada para agradar a quem precisa do espectáculo divino.

 

Tinha medo, medo da Sua presença. Nunca tinha estado tão perto de um dos meus deuses. Vivo. Um dos maiores. Ou talvez o maior. Zeus de um panteão não muito extenso.

 

Por norma, basta-me a Obra Divina. O encontro com Deus pode sempre constituir uma desilusão dolorosa e marcante até ao fim dos dias. Lembro-me amiúde da estória do sociólogo Jean Cazenneuve sobre o miúdo apaixonado por uma cantora de ópera, que a segue por todo o lado e que um dia, após um concerto, ganha coragem e invade clandestinamente os bastidores, para a abordar. Quando a encara, esta, está sentada na sanita a mijar. Toda a mágica se esvanece e o rapaz sai espavorido da cena deixando para trás uma mulher atónita. Nunca mais quis saber de óperas nem de cantoras de qualquer género musical. Os deuses também têm caspa...

 

Bob Dylan. Está ali. Um velhinho de vestes ridículas. Pernas abertas e tortas perante um  órgão baixo. São estas pernas que mais interagem com a música.  Uma voz roufenha e hoje incompreensível. Não mexe numa guitarra. Toca músicas que não conheço ou não entendo. As músicas que comigo atravessam os tempos são outras. Só a custo registo a balada de um homem magro (o melhor momento da liturgia). No final, como uma pedra rolante. A pergunta how does it feel, já não soa como uma pergunta. Like a Rolling Stone, já não soa como a resposta. No entanto as lágrimas assomam quando a harmónica soa na noite.

 

Registo com apreço a Sua recusa a envolver-se na sociedade em que tudo tem um preço. Nada de fotografias ou imagens para banalizar o mito. Ou comerciá-lo.

 

Desiludido? Não! Nunca! A um politeísta como eu. Na alma de quem os deuses são homens que se tornaram génios a obra é o que conta. Continuarei a evangelizar até ao fim. A Sua presença basta-me.

 

PS: Metido à  estrada com um filho de 18 anos, este on road again torna-se, por si só, outro momento mágico. Por ele o festival durou da 5 às 3 da madrugada. Eu não duraria muito mais e, quando o consegui sacar do cuduro dos BuraKa, estava à beira da rotura física e mental. Para um quinquagenário misantropo, 10 horas de festivais são demais. No entanto, hoje em que escrevo estas palavras, sinto-me muito reconfortado na minha auto-estima por ter aguentado tanto…

sinto-me:
música: LiKe a Rolling Stone
publicado por vítor às 15:15
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