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Terça-feira, 28 de Novembro de 2006

Guerra no Iraque

Para quem conhecia a história do Médio-Oriente , para quem se preocupava e preocupa com os meandros antropológicos complexos do puzzle étnico/religioso desta matriz civilizacional, era uma evidência clara (desculpem-me o pleonasmo) que a aventura militar dos Estados Unidos da América ia ser um flop . Um verdadeiro tiro no pé.

A invasão, previa-se, seria relativamente fácil. A supremacia tecnológica esmagadora do invasor aliada a um relevo e clima facilitador da deslocação de exércitos pesados e a escassa vegetação alta, que permite o varrimento rastreador de satélites e radares, seriam preciosos aliados no assalto a Bagdade. Bem ao contrário do que tinha acontecido com a guerra do Vietname . E já que falamos no Vietname , o grande trauma dos americanos que havia sido parcialmente resolvido com a reposição da legalidade operada pelos Estados Unidos no caso da 1ª Guerra do Golfo com a "libertação do Kuwait , é o próprio Bush que reconhece que a actual situação no Iraque é similar à vivida pelos marines neste país.

Como dizíamos, a invasão seria sempre pouco complicada. A ocupação, sim , seria o verdadeiro problema. Os suprasumos neocons do pentágono cometeram o primeiro grande erro depois chegada a Bagdade, após as suas delirantes elucubrações ideológicas sobre a teoria dominó para a democracia e futuros amanhãs que cantariam na região, que foi extinguir o exército iraquiano e desmantelar toda a estrutura do partido Baas . Exército e partido que aliás foram armados e treinados pelos americanos não muito antes dos acontecimentos que aqui referimos, aquando da guerra Iraque- Irão.

Teria sido mais prudente ter escolhido para líder um homem forte do exército e do Baas e feito eclipsar-se Saddam e os seus mais próximos carniceiros. Assim, com uma estrutura de poder e de força bem implantados no terreno e com cadeias de comando relativamente consistentes e operacionais , a anarquia que se instalou nos meses que se seguiram à invasão e que se foi instalando em crescendo até aos nossos dias, possivelmente, poderia ter sido evitada ou pelo menos minimizada. Sabemos até como psicologicamente o novo dono do palheiro tende a bajular quem lhe forneceu a chave do dito. E os iraquianos, se  não estavam de braços abertos à espera de um invasor/ libertador (estranho binómio), certamente que não desdenhariam livrar-se de um déspota que não era obviamente amado por muitos...

O segundo grande erro foi pensar que curdos, sunitas e xiitas dariam as mão e formariam o melhor dos governos, no melhor dos países, na melhor das democracias. Não conhecemos nós cadinhos etnico-religiosos na "civilizada" Europa onde problemas similares se verificam e onde só à força de mantém o "convívio" entre partes diversas. Lembremo-nos do Kosovo, da Bósnia- Hersegovina , da Irlanda do Norte, e outros.

Mas, para não nos alongarmos muito, o mal está feito e é preciso olhar para o futuro. Americanos e, menos, ingleses, e, ainda menos, alguns poucos aliados, estão atolados no Iraque e numa situação em que sair parece não ser solução e ficar nunca será solução. Então que fazer?

A minha solução, falível como todas as soluções, será a que começa a ser, timidamente, aflorada pelo grupo Baker : envolver os vizinhos. Só que a minha proposta é mais explícita e, de certa forma, mais radical: ameaçar os vizinhos com a saída! Como?! Nenhum vizinho gosta de ter problemas à porta. A não ser que... um ou mais inimigos estejam envolvidos e altamente penalizados com o problema. Mais, que mantenham o problema controlado dentro de certos limites e que vão enfraquecendo em lume brando (pouco brando aliás) e cometendo erros atrás de erros.

Vamos fazer conjecturas. Americanos e aliados, pressionados pelas imparáveis opiniões públicas e incómodos períodos eleitorais, tudo fazem para abandonar rapidamente o Iraque. Cenários: 1- Guerra civil aberta entre curdos, sunitas e xiitas e desmembramento do Iraque em três países.

Reflexões: Guerra já é o que se passa hoje. Guerra entre iraquianos ( ou parte) contra invasores. Guerra entre grupos iraquianos. A violência e o número de vítimas diárias não nos desmente.

Desmembramento do Iraque está em cima da mesa hoje como esteve ontem e sempre estará. Ou seja não é a presença de um exército ocupante que travará esta  tendência entrópica crónica.

Temos portanto que as forças ocupante pouco ajudam no resolver do imbróglio actual. Pouco mais fazem do que proteger-se a si e aos governantes iraquianos actuais. Ou seja, esgotam-se em si mesmo.

Conclusão 1 : Se as forças de ocupação saíssem com um calendário pré- fixado e lestos, poderiam fazê-lo com relativa segurança e na certeza de que não  acrescentariam grandes dramas ao enorme drama que se vive hoje no Iraque. É claro que a situação poderá sempre borregar mas alguém nos garante que não é isso que já se está verificar?!

Conclusão 2 : Quem ficaria preocupado com a saída dos ocupante? Passo a enumerar:  Irão, Síria, Jordânia e Turquia. Violência descontrolada e, sobretudo, desmembramento seriam o pior que qualquer destes países poderia desejar. Um país curdo então traria mesmo o consenso pleno entre eles. O que fariam? Simples. Empenhar-se-iam em resolver a crise. Melhor do que os Estados Unidos seguramente.

 

 

 

 

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publicado por vítor às 21:01
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1 comentário:
De Anónimo a 29 de Novembro de 2006 às 14:23
Antes de mais, reconhecendo uma certa carga desagradável ao termo "anónimo" este só surge na minha identificação (?) por mera limitação da plataforma tecnológica que serve os blogs.sapo,podiam deixar a malta que não tem assunto para um blog,como é o meu caso,ter um nomezito qualquer.Mas enfim,sou o Pedro.
A entrada das tropas de bush na Babilónia foi facilitada pelos motivos que tu racionalmente nomeaste e mais um.A corrupção.Hordas de generais e outros que tais foram comprados para que não actuassem na hora certa e foi ver a elite de sadam apanhada com as calças na mão!...em troca não apareceram em determinado baralho e receberam em géneros consoante os serviços prestados.A arrogância e uma vontade férrea de manter o status quo, -responsável entre outras coisas como os desastres naturais provocados pelo aquecimento global - estiveram por detrás da sábia decisão do indescritivel bush.Arrogância e ignorância.
Se alguma virtude está a ter esta visita papal à Turquia,é a de estar a dar voz ao que designamos de Islão Moderado.com a nossa ignorância,estamos a empurrar milhões de irmãos Islâmicos para as garras do Bin.Nós e os outros,os bons e os maus e outros dramas civilizacionais....Um exemplo aterrador de ignorância:
Comentando a visita papal,um alto signatário da Igreja em Portugal,chamou Árabes aos Turcos!!
Um exemplo de tolerância;quando Há1/4 de sec. atrás ,ainda não tinham sido inventados os extremistas Islâmicos,estavamos nós encostados a uma palmeira da Cotovia a beber uma cervejola que tinhamos comprado na Cidade Nova e curiosamente não fomos linchados,fomos chamados à atenção.E com toda a razão!

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