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Domingo, 30 de Maio de 2010

pela estrada fora à procura da loucura ubíqua

 

Dennis Hopper (1936-2010)

 

sinto-me:
música: like an hurricane - neil young
publicado por vítor às 21:22
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Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

o olhar desinteressado dos cúmplices

 

Não é permitido o uso de qualquer sistema informático e/ou audiovisual. A placa de contraplacado com estes dizeres longos e claros era imperativa. Colocada à entrada da taberna, selecionava a clientela. Lá dentro, na penumbra difusa atrás do trava-moscas cantante, vultos dispersos ocupam algumas mesas silenciosas, ocultando os gestos no torpor do dia soalheiro. Uma tarjeta pequena  complementava a sua irmã exterior: reservado o direito de admissão.

Quando penetrei a penumbra acolhedora, ninguém voltou a cabeça, o olhar sequer, para a mudança musical operada pelos canudos pendentes da porta. A claridade esgueirava-se, atrevida, pelo salão, desocultando cones de poeira e fumo dançando no ar. Fumava-se no interior, emprestando à casa um odor a fim dos tempos.

Dirigi-me ao balcão e sentei-me num banco de pé alto, fincando os cotovelos no mármore gasto que separava o espaço público do privado: a vida às escâncaras da vida recolhida.

O seu pedido é uma ordem, disse alguém, a quem não vi os olhos, com voz mansa e rouca, por detrás da barreira, quase intransponível, trave estrutural do estabelecimento de bebidas e petiscos.

Lá fora a tarde deslizava, serena e quente, para os braços da noite acolhedora. As aves procuravam as sombras colhendo os últimos insectos antes do sono.

 

sinto-me:
música: o tempo dos assassinos - Jorge Palma
publicado por vítor às 17:15
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Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

poemas do banco de trás, na rua

 

Saiu hoje para a rua. Debruce-se para dentro de nós e entre para o banco de trás. Venha respirar o futuro.

 

 

quando inclino o corpo

 

 

Quando inclino o corpo para a lentidão

redonda dos teus seios, vejo atentamente

que ainda não respiro o futuro.Sabes,

o pólen cai na boca dos que abrem

o silêncio. Sobra talvez uma fuligem em

cada pulso, levanta-se um leve vento,

mas os dias animados sequer encolhem

quando enlouqueces com as tuas baças

unhas amarelas...

 

Não é assim a casa desta manhã quando

os pintassilgos folheiam os cardos, e a cama

é devagar ao lado duma fogueira desmaiada.

As cabeças estremecem um pouco no

regresso do sol das dunas, há um navio

que deambula ainda no corpo, na exígua

memória duma guitarra e outras cordas e peixes.

Sim, alguém se debruça para dentro de nós,

quer sacudir a profunda alegria de sermos

uma realidade com sonho aberto...

 

Todavia temos os castelos que inventámos

após o murmúrio dos pinheiros altos, onde

guardámos as amoras, os medronhos

secos. Bebemos agora a água que resta

doutro vinho, proclamamos a prenhe volição,

a visceral palavra, e embora com uma ramela

a descansar em qualquer labirinto disponível

somos um carrossel de emoções descobrindo

aquilo que pressagiámos durante a vária

areia. Inclinamos o corpo e vemos atentamente

que ainda não respiramos o futuro...

 

Rui Dias Simão, Maio de  2010, edições CATIVA.

 

À venda neste modesto estabelecimento pela módica quantia de 7,5 euros (+ envio).

sinto-me:
música: saiu para a rua - Rui Veloso
publicado por vítor às 23:07
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Domingo, 16 de Maio de 2010

o albatroz

 

L'Albatros

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.


[Baudelaire]

 

publicado por vítor às 20:58
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Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

mais uma corrida mais uma...

 

Dia 15 de Maio no Auditório do Campo Grande, Lisboa, pelas 19h

Apresentação: Rui Almeida

Leitura de poemas: Inês Ramos


Sábado lá subirei à capital para duas cerimónias rituais: almoço de antropólogos e lançamento do novo livro de poesia do meu amigo Fernando.
O almoço será uma bela oportunidade para ver velhos amigos e viajar um pouco a momentos  felizes de outrora.
O desabrochar do livro do Fernando, Área Afectada, será um acontecimento literário dos mais importantes do ano. 13 anos depois do lendário e admiravél (esgotadíssimo) Ensaio Entre Portas (em baixo) é com grande expectativa que espero para ter o novo livro nas mãos.
sinto-me:
música: roadhouse blues - the doors
publicado por vítor às 17:16
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Terça-feira, 11 de Maio de 2010

Domador de Sonhos

Recomendar a revista é como uma empresa produtora de escovas de dentes recomendar a utilização de uma escova por dia...

 

Paulo Serra

 

Mas vale a pena pelos que não vendem escovas.

sinto-me:
publicado por vítor às 00:01
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Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

uma onda de felicidade varre o país

 

A bolsa sobe vertiginosamente, os juros em queda livre. Era disto que o país precisava.

sinto-me:
música: forever young
publicado por vítor às 11:14
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Domingo, 9 de Maio de 2010

a felicidade não é uma utopia

 

Afinal a felicidade é possível. Obrigado campeões!

sinto-me: Forever young
publicado por vítor às 22:51
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Terça-feira, 4 de Maio de 2010

o pó inútil

 

Ainda os dias não se tinham repetido na retina dos transeuntes e já os nossos caminhos se separavam. Os dias cinzentos, dizem alguns, são propiciadores da reflexão e do ensimesmamento intelectual. Quando o sono não aparece nas noites secretas em que o vazio preenche as abóbadas da podridão exagerada, regresso a casa de quem me quer bem. Nunca os solavancos da inexatidão foram suficientes para me deitar por terra. Nos nevoeiros em que  rocei o abismo; nas trevas insanáveis da loucura, socalcos cruéis em carne viva; colhi as temperanças da retidão das pedras, dos muros sinuosos e das serpentes curtidas no alcatrão em fogo. Cruzas a estrada e o vento não te sussurra o perigo que se alevanta, inútil, no pó que te envolve.

sinto-me:
publicado por vítor às 19:37
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