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Sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

O Recado

 

 

O teu recado não chegou até mim

Não vou esperar mais, tenho fome

De me inscrever nos raros diálogos da espera

O teu recado pode vir sereno e criptado ,

Comovente e absoluto de emoção

Não vou esperar mais, tenho sede.

 

Os muros que te envolvem agridem as minhas insuficiências

Ampliadas pelos ventos em que flutuas

 Incompreendidas nos sentidos inquietos.

A espera revela-se unívoca

Rasgando o corpo carente e sombrio

Abandonado no ventre da solidão

Puída na triangulação divina dos entes inacabados.

 

O teu recado nunca chegou até mim

Não vou esperar mais, tenho ganas de viver.

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publicado por vítor às 11:14
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Quinta-feira, 26 de Outubro de 2006

Onde te meteste Calvin?

O meu jornal madrugou verde! Não me incomodou muito. Já me vou habituando a quem vende a alma ao diabo. E então o sr . director! O que verdadeiramente me irritou, foi não encontrar o meu velho amigo Calvin no lugar do costume!

Só não o devolvi ao sr . arquitecto porque nele constava um interessantíssimo artigo de Pacheco Pereira sobre privacidades, jornais de referência e tablóides. Este não vende a alma a ninguém... aliás como o Calvin .

Parece-me que o "Público" está a mudar e qualquer dia terá também de mudar de nome. Que tal "Privado"? aproveite sr director! Já que está em ciclo de mudanças...

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publicado por vítor às 21:10
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

Os Campos que me Envolvem

 

 

 

 Os campos que me envolvem

Estão ebriamente nus.

Fossilizados,

Desertos de saudade,

Repelem o meu corpo

Às sombras sem música

Onde maximalizo os sentidos

Forçosamente doridos.

 

Sentado na escuridão adormeço,

Os anjos calados,

Os pecados que não conheço.

 

Acuso-me

E recuso-me.

Aceito.

Desprezo-me

E acordo.

Rejeito.

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publicado por vítor às 17:47
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

...


A cultura chegou em carros de mão

Os noivos casaram-na.

Foi a noite a culpada

Dos mochos dizerem a verdade.

O dinheiro é sempre como a acupunctura,

mete-se no bolso, alivia.

 

E os bilhetes de Sábado?

Não, a solidão não vai ao teatro,

Junta-se a outras amigas e comem...

Comem corpos.

 

E ainda bem, querida senhora!

Fomos todos a Sintra e pimba

A cultura viu-nos.

 

 

 

 

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publicado por vítor às 23:07
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Índice de "Transeuntes"

Índice 1 – O Cabo Santos (8/5/06) 2 – No Bar do Costume (9/5/06) 3 – Um Piolho Sem Cabeça (11/5/06) 4 – O Fogo da Salvação (11/5/06) 5 – Um Homicídio Anunciado (13/5/06) 6 – Um Macho Sem Dez Tostões (17/5/06) 7 – A Cavalo do Impossível (17/5/06) 8 – Um Bilhete para Singapura (18/5/06) 9 – Sabedoria Pentagonal (22/5/06) 10 – Unhas Curtas (22/5/06) 11 – Uma Alface já na Salada (26/5/06) 12 – Um Antropólogo Competente (26/5/06) 13 – Caramelos nas Orelhas (2/6/06) 14 – A mulher Santa (7/6/06) 15 – Bares Esvaziados na Madrugada em chamas (19/6/06) 16 – O crocodilo do Costume (26/6/06) 17 – Um Homem Imóvel (26/6/06) 18 – O Carregador de Almas (26/6/06) 19 – Farejando Notícia (17/7/06) 20 – Dois Castelos e uma Hóstia (30/7/06) 21 – O Triturador (30/7/06) 22 – Um Grito Mercenário (10/8/06) 23 – Viagem de Volta Favorável (10/8/06) 24 – Uma Catacumba Caiada (14/8/06) 25 – Estava Frio na Tarde Poeirenta (22/8/06) 26 – Uma Chaminé Sorridente (6/9/06) 27 – Um Homem que por Acaso Era Eu (7/9/06) 28 – Amizades Bafientas (11/9/06) 29 – Um Homem apagado (11/9/06) 30 – Um Juiz Parcimonioso (21/9/06) 31 – Uma Presa Sem Qualidade (5/10/06) 32 – Nuvens à Esquerda (14/10/06) 33 – São Cinco Horas da Manhã na Cidade (14/10/06)
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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

Fim

Chegou ao fim o blivro Transeuntes. Pelos sapos-tristes , puderam ver como o fim foi doloroso. Depressão pós- ..? May be . Como o fim é sempre um novo princípio, anuncio-vos, como prometido, o segundo blivro da tríade anunciada: "Partículas"! assim se chamará a nova aventura a iniciar brevemente. Agora as palavras serão servidas sob a forma de poemas. Boa viagem!

sinto-me:
publicado por vítor às 15:57
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Sábado, 14 de Outubro de 2006

São Cinco Horas da Manhã na Cidade

 

 São cinco horas da manhã na cidade. O vento parou um pouco. Entre as sombras gigantes das árvores, passeio confusamente anos acumulados de solidão.

  É triste a impossibilidade de regressar. Regressar a um lugar onde as coisas se ligavam logicamente, formando um corpo coeso e inteligível.

  As ruas arrefecem do longo dia de Verão, é , no entanto, discutível se eu o sinto, porque não há pássaros acordados na noite.

 A cidade define-se por ter bares abertos às cinco da manhã. Não os encontro e talvez não esteja nela. Ou então, maldosamente, fecharam para me impossibilitar o contacto com os outros.

 Sinto-me observado quando dobro as esquinas sujas da minha mente. É uma sensação agradável, mas  portadora de angústia. Angústia porque sei que nada me pode observar como sou e, muito menos, às cinco da manhã de uma madrugada sem Lua. Há um universo de coisas desconexas entre mim e o que pretendo dizer. Um não acabar de estímulos irreversíveis que nunca vou voltar a lembrar: aliás a memória é um instrumento ao serviço do passado e eu sou um deserto sem vegetação primitiva.

  No cais alguns barcos descansam, sentem arrepios  só de pensar nos anos que o mar lhes vai dar de novo.

 Algumas carcaças, como eu,  sonham com a morte, enquanto se tentam roçar nos ventos húmidos da maresia. Descrever a beleza  é uma tarefa vã. Só os loucos a tentam. É voltar atrás para desnudar o futuro. A transgressão dos tabus é um enorme fascínio, a que sempre se resiste enquanto somos homens livres. Os tabus algemam a vontade à sua violação.

  Começa a levantar-se a luz da madrugada - as cinco horas já vão - e as coisas começam a tornar-se feias. Até talvez os pássaros não gostem da madrugada, e o seu cantar seja o repudio pelo renascer de uma morte , que é o sono.

  A angústia apodera-se das minhas forças já frágeis de ousar desafiar a natureza. Os barcos desapareceram para o mar imenso esperando naufragar, a qualquer vaga, nas escuras profundezas do oceano.

   Olho em volta e as sombras transformam-se em luzes coloridas, horríveis a meus olhos. Até as mulheres, anjos da noite, se tornam reprováveis formas fluorescentes.

  Começa a nascer o dia - de parto normal - e tenho a certeza que não vou encontrar ninguém: a esta hora já os autocarros deviam vaguear pela cidade arrancando as pessoas ao sono. Belisco-me. Não sinto dor e por isso estou seguro que estou acordado. A dor é própria  dos eternos sonhadores, convertidos em pus, nas suas camas de luxo.

 Viro a mais uma esquina virtual, de onde posso espreitar o despontar dos comedores de ilusões. Ali, onde o tempo age de improviso e confessa ter um filho que não conhece , onde embarcam os marinheiros aflitos, não vi ninguém. Então, qual ribombar de trovões, vindos de não sei de onde, surgem toneladas de carrascos enlatados, atirados do alto da pirâmide.

  Respondi-lhes com a coragem possível nos dias de hoje:

-         Desculpem mas não podem entrar na minha casa. Na minha casa só entra gente de bem.

Eu sei que às vezes penso que os outros estão a topar as minhas fraquezas, mas isso, sei-o bem, é uma fraqueza da minha parte.

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Nuvens à Esquerda

 

  Nuvens à esquerda. Qualquer coisa entre mim e o Sol poente.

  Tinha um ar tão grave quanto se podia imaginar e mesmo assim sorria. Sorria às coisas. Pronto. Tudo se passou como uma brisa contra a tempestade ( aliás previra-o ). Quantos calafrios a atravessar a noite poeirenta. A vida.

  Apeteceu-me chorar pedaços de carne. Da minha carne.

  Há um mundo a desabar sobre o meu ( que já não chamarei mundo nem terei coragem de apelidar ), com asas grandes a afastar as únicas borboletas que restam do meu amor. Uma auto - estima inútil e nua. Perdi todas as correntes e esqueci todas as portas. Quase todas... ( é próprio dos moribundos agarrar freneticamente um sonho esfaqueado )

  O céu fundia-se como o ribombar dos trovões na mente dos aflitos. Multidões de gritos, como abutres, esperam o cair da noite. À noite as flores entregam-se a si. À noite ninguém assassina flores.

  Não existem recordações de infância onde os sentimentos flutuam em convulsões febris. A minha dor não tem memória, mesmo não podendo imaginar dores sem memória, por isso é irreversível, sem origem. Como a noite que cai...

  Nas asas do sono brincam sorrisos rodopiando eternamente ao vento.

  Há nuvens à esquerda incapazes de me tocar, receando perder a capacidade de estar sós.

  Perdão, a noite cai. O Sol, e eu, vamos para o outro lado da penumbra.   

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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006

Os Filhos da Coreia

O que é preocupante, não é tanto a Coreia do Norte ter a "bomba", é ter sido um país pobre, fechado à circulação de tecnologias ,  faminto, dependente da ajuda externa, com populações ignorantes do que se passa no mundo,  a fazê-lo. Quantos países com estas características e igualmente irresponsáveis conhecemos? Muitos, não é? Pois é aqui que está o verdadeiro perigo. A energia atómica  está aí,  em qualquer vão de escada. Qualquer dia, qualquer grupo minimamente organizado fabricará a sua. E depois é só utilizá-la a seu belo prazer. Este é o perigo: a proliferação multitópica !  Adeus dominó! Bom dia Cogumelos!
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Terça-feira, 10 de Outubro de 2006

Árvores à janela...

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publicado por vítor às 17:14
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