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Sexta-feira, 26 de Maio de 2006

Um Antropólogo Competente

 

 Um homem, que pelo que a senhora do café disse, cigano, mijou na casa –de- banho. E onde está o mal pergunta-se?

   Malditos ciganos, não sabia o vento levá-los, guinchou a mulher do café  ( presumo que a dona do estabelecimento, entendendo o café como edifício que alberga efemeramente transeuntes carentes), armada de balde e esfregona farfalhuda.

   Mijou à parede, mesmo ao lado da sanita, nojento! vociferou impiedosamente, colocando uma cara-de-boca-de-cu.

   O homem, provavelmente levado pela ventania, não se encontrava nas redondezas, enquanto a relinchante esfregadora procurava o unânime assentimento dos carentes, efémeros clientes da globalização. Eu, que tudo sei, poderia adiantar que o vi agora mesmo entrar no barbeiro do quarteirão seguinte. Mas que interesse tem isso para agora...

   Depois do árduo trabalho de limpeza da retrete, a senhora empresária sentiu-se aliviada. A sua alteridade reforçara-se. O “nós” consolidara em ritual suspenso e ávido de movimentos de nucas.

   O dia começava a raiar quando o antropólogo entrou no café. Trazia, como sempre que trabalhava no ofício, a pele de outro. Confundia-se com o objecto de estudo. Mimetizava-se de “homo falsus”, para ser levado a sério.

   Sentou-se com a barba de cem dias. Pediu café. E, para agradar aos fregueses, uma aguardente velha. Seguramente mais velha que a sua barba e mais nova que a sua vida. A aguardente é claro. O que nada nos adianta sobre a sua idade. A dos dois é claro. A não ser que ambos tinham mais do que cem dias. O que já antes era óbvio: ninguém, com menos de cem dias, pede uma aguardente e nenhuma aguardente velha que se preze tem menos de cem dias. Que confusão. Quem disse que o caminhante fazia o caminho?! Voltemos ao caminho.

   Tragou primeiro o café com cheirinho e depois, devagar, em pequenos goles a bebida ardente. Socializando-se com gozo. O tempo parou por breves instantes. Só o vento se ouvia inquieto.

   O antropólogo sentia a nova pele aconchegar-se ao "velho" corpo enquanto um prazer intelectual profundo o colocava nos interstícios do tecido social e lhe corrompia a identidade. O tempo, como atrás víramos, parara e era preciso dar-lhe vida. A festa não pode ser eterna. A sociedade é um fluir incessante que não pode parar. Parar, como tão bem Lapalisse frisou, é morrer. Ficar encantado à espera do sapo. Ou do príncipe?

   Esticou o gozo até onde pôde e subitamente levantou-se e pagou. Antes de sair foi ainda à casa-de-banho. Depois, despedindo-se com um claro “até-logo”, entrou no vento e desapareceu rapidamente na direcção do quarteirão seguinte. Alguns fregueses pensaram a medo: que cigano simpático...

  O café entrou no remanso turbilhão (rodando para a direita como sempre acontece no hemisfério norte) da normalidade. As conversas de catação voltaram a escorrer sem fio afrouxando as tensões. Só o vento se ouvia inquieto.

   Mas o tempo, que não é previsível, logo voltou a entrar em turbilhão        ( agora rodopiando para esquerda como sempre acontece, com os turbilhões catastróficos, no hemisfério rico) gerando uma confusão momentânea na ignorância dos clientes.

    A dona do café, que não era ingénua, tinha ido espreitar à casa-de-banho.

    Malditos ciganos, uivou. Não sabia o vento levá-los, guinchou.

   Alguns fregueses pensaram sem medo: os ciganos são sempre falsos.

   Eu, utilizando as mesmas premissas, cheguei a outras conclusões: nunca se pode confiar num antropólogo enquanto trabalha. E, manuseando outras premissas, diria mesmo: muito menos quando não trabalha.

 

   Seriam umas onze horas, duas horas passadas sobre os dramáticos acontecimentos ocorridos, quando o antropólogo voltou a entrar no dito estabelecimento comercial. Alguns fregueses, especialmente freguesas, seguiram o seu deambular ondulante, pelo café, até à mesa escolhida para pousar. Roupas primaveris e uma cara escanhoada pareciam fazê-lo mais novo. 

Mais novo que certas aguardentes velhas.

   Sentou-se e pediu um café e um queque com passas. Mordiscou o queque enquanto ia bebendo o líquido quente, devagar. Adorava a mistura dos dois. Molhou mesmo o bolo no café.

   O ambiente não se alterou significativamente com a entrada do estranho. Um caixeiro-viajante, pensou uma mulher mais nova, mergulhando em viagens para longe. O vento amainara lá fora.

  O cheiro a mijo ainda não se tinha dissipado completamente apesar da esfregadela profissional. A dona do café estava feliz. A vida corria sem sobressaltos e os momentos eram dentes em roldanas de velho relógio com corda para uma semana.

   Passado um bom bocado, e depois de umas miradas com interesse à telenovela da hora do almoço que corria na televisão, o antropólogo levantou-se, dirigiu-se ao balcão, pagou, foi à casa-de-banho e saiu despedindo-se:” até sempre”. Os fregueses responderam-lhe cordialmente e retomaram a postura de efémeros carentes sem lugar nem futuro.

      O cheiro a mijo tinha aumentado consideravelmente.

   Malditos ciganos.

   A dona do café atribuiu-o ao vento que amainara lá fora.

    

 

 

 

 

publicado por vítor às 18:59
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Uma Alface já na Salada

 

 

 Eu estava ali sentado. Uma mesa redonda sem fim, cheia de beatas de cigarros e de ilusões enlatadas num frasco de açúcar.

  Às vezes entravam melgas gigantes. Traiçoeiras. Vestidas da cor das manhãs sem Sol.

  Pensava nos amigos e nas lágrimas que se desprendem pelos comboios que partem acenando até os olhos se despedaçarem em jardins solitários. Nunca se sabe até onde os amigos podem chegar no nosso bocado de solidão.

  Há ainda os copos de álcool com cintos de cabedal à cintura.

  No outro dia começaram as queimas em louvor dos vossos espíritos. E mais uma vez te perdi.

  Apetece-me encontrar cadáveres sorridentes nas páginas dos livros de pó, a navegar no meu tempo e nas ânsias esquecidas dos nossos pensamentos.

  Há ali uma estante inclinada perante os servos dos grandes. Como ela lhes rendo a minha homenagem singela. Para além disso nunca saberei como pagar a quem sofre os meus padecimentos.

  Não vês o que a música tem para nos livrar dos pecados?

  Nem por sombras arriscarei acariciar-te o cotovelo. É teu. Acariciar é uma trajectória imaginária à volta dum corpo indizível. Todos nós temos um romance almareado com o horizonte. É aí que todos os elementos (com fúria) se orientam segundo rumos de afectividade.

Acontecem ainda algumas coisas difíceis de compreender nas ocasiões em que dois guarda- chuvas se precipitam na terra lavrada.

  É doido o que não pensa o dia de amanhã. Que agradável loucura, pensou um homem pendurado no cabide do precipício.

  ( ... )

  No dia seguinte:

  Foi então que chegaram ao pé de mim elefantes a jogar petanca. Como ninguém lhes sorriu, sentaram-se e pediram café.

  De Angola, perguntou o empregado.

  Não, do Pólo Norte, responderam em coro como se a pergunta fosse uma alface já na salada. Era de caras.

  Um dia, pareceu-me triste, vieram-me falar uns indivíduos esquisitos. Bebiam uma mistura de bi-naranjus com bagaço do século XIII. Vomitaram algumas ideias completamente escaradas. Como era de esperar, juntei-me a eles e percorremos 3/4 do globo terrestre a pé. Chegados a um lugar, reparei que tinha gasto a sola das botas. Comi o que restava delas - como Charlot - e fui a nado à Mauritânia (ou Singapura?).Aí, na Mauritânia ou em Singapura, comi uma lata de sardinhas e estraguei os dentes todos. Dei-os então a uma menina de caracóis de luar. Pensei que eras tu.

  Mais adiante surgiram as primeiras complicações: numa sala quadrada com duzentos metros de lado, assoviavam alguns homens. O número de criaturas possível de caber na sala mais um. 

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publicado por vítor às 18:25
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Segunda-feira, 22 de Maio de 2006

Novo PGR

Neste país onde virou moda inventar choques: "choque tecnológico", "choque fiscal", "choque cultural", choque, choque, choque. Porque não se aproveita a altura certa, quando se está a aproximar o fim do mandato do Procurador Geral da República, para dar um "esticão geral" no país com um verdadeiro "choque de justiça": a Magistrada Maria José Morgado para nova PGR.

Quem não deve não teme! E o que precisamos mesmo é de alguém que abane este país e que afronte, sem medo e sem interesses engajados, a corrupção e os corruptos que arrastam o país para a lama.

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publicado por vítor às 23:05
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...

O livro que me comprometi a escrever no meu blog, cá vai andando. O longínquo cabo Santos já marcha no arquivo. A lâmina sonhadora aflora à tona do blog.

Sugestões, críticas e todas as opiniões possíveis e imaginárias serão bem vindas. Eu sei que descobrir este blog é como encontrar um grão de areia peculiar no meio de uma longa praia. Mas um escrevinhador como eu não pensa em primeiro lugar na quantidade de leitores que terá. Pensa sim em deixar um rasto no horizonte, como um grafito nas asas de uma mariposa.

Bem! Se descobriu este blog, faça publicidade. Se ainda por cima estiver ligado a uma editora... estou disponível para negociar... tenho sacos cheios de palavras à espera.

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publicado por vítor às 22:36
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Unhas Curtas

 



Para que não me acusem de ter feito isto. Para que as más línguas (meio de informação e constrangimento que muito aprecio ) não me acusem de não ter feito aquilo. Para que a minha vida não se torne nas experiências que nunca soube viver, ou me perca nos labirintos das diversas realidades. Vou fazer a vontade a uns e a outros ( sendo uns outros e outros uns ). Sentar-me a cortar as unhas,

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publicado por vítor às 22:19
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Sabedoria Pentagonal

Fixei os olhos no canto da janela. Saiu daquela paisagem e foi-se debruçar para o mar e vi uma gaivota mergulhar em vírgula numa embarcação decadente que violara as vidraças. Tentei não reparar que as persianas faziam malha no centro das nuvens em forma de guarda-chuva.Consegui com isso uma leve impressão no céu da boca que me causava a mais terna sensação de mal estar já sentida por um semi-afundado espectro de fantasma de ourives. A paisagem voltou a entrar livremente pela janela esburacada sem pedir autorização à genialidade ali presente. Fiz de conta que o ritual era a condição necessária à permanência das angustias fora das suas gaiolas da Meia-Noite. Espremi os joelhos procurando não semear conflitos na espuma do Levante. Alguém acenou como que a pedir uma explicação desordenada e louca aos poderes calados dos mistérios segregados na rua coberta de pássaros perfeitamente enraizados na calçada da alma enlameada. Uma onda malandra! Vim apressadamente a tua casa amolgada por cigarros desfeitos de encontro às paredes da retrete. Onde vais com os olhos asfixiados de sabedoria pentagonal?
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Quinta-feira, 18 de Maio de 2006

Um Bilhete para Singapura

 


Engoliu a harmónica. Maldita televisão ( a cores ) a desfocar-lhe os monstros caídos nas batalhas pela independência dos espelhos.

Claramente, e pela certa era provocação, choviam anjos no cabelo da sua namorada e isso entristecia-o consideravelmente.

Colocou a garrafa de bourbon de Sacavém no estômago. Amargo. Estonteante. Amigo.

Deu três passos em direcção do telhado, rodopiou em caracol e sentou-se nas asas dum cogumelo ( pareceu-lhe o de Hiroxima). Sentiu-se ridículo ali especado.

A noite caía aos trambolhões, agressiva. Começou a sentir a incompatibilidade digestiva harmónica/suco de Sacavém.

Maldita televisão ( a cores) que lhe atirava bundas milagrosamente entesoantes à cabeça.

Meu deus, que frio se começava a sentir na cidade. Começou então a cantar numa voz alcoolicamente triste ( talvez à Ottis Reding) :

  • Ó Elvas ó Elvas, insistia a espaços.

Subitamente saiu pelas ruas, comprou um bilhete de avião para Singapura e zarpou no dia seguinte.

PS: Curiosamente nesse dia, 30 de Agosto de 1983, deixou de chover anjos no seu coração.

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Quarta-feira, 17 de Maio de 2006

Luz ao Fundo do Túnel

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publicado por vítor às 21:53
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A Cavalo do Impossível

 






A cavalo do impossível cheguei de longe. Era Sábado à tarde já tarde e bebi uma cerveja na tasca da esquina. Livrei-me de conhecer os cigarros já moribundos nos cinzeiros e passei à sobremesa sem grandes pressas.

- Outra cerveja, arrotei, das de exportação.

O homem do fundo levantou-se e saiu aos trambolhões pela janela.

  • Meu Deus.

Parecia que levava os bolsos cheios de lágrimas derramadas ao acaso. Já na rua retomou a compostura e rastejou assoviando às pedras da calçada.

  • Onde mora o encantador de serpentes, perguntei à empregada enfrascada em cebola. Respondeu evasivamente e colocou-se à minha disposição na posição habitual. A quatro é sempre difícil, pensei desabotoando a braguilha. No entanto, para começar não está mal. Fiz o serviço e saí pela janela.

O Sol punha-se atrás do bosque envenenado. As flores do soalho da rua empoeirada exalavam um cheiro acre a bife de vitela mal passado. Eram trinta luas para o fim da exposição final que começava a parecer um cravo espetado nos pulmões da aldeia. Afinal o encantador de serpentes morava no largo fronteiro ao cemitério, já na linha que separava a aldeia do bosque envenenado. Transpus a linha de um salto, que me pareceu mortal mas que afinal foi banal, e bati na janela da casa-sem-convicção. Ninguém, veio à porta. Achei-o meio desfigurado, por entre a amálgama de entes castrados que lhe espreitavam atrás dos braços e das pernas. Vinha um mau hálito, a sardinha crua, da sala do fundo que mais tarde vim a saber era o parlamento do país aos fins-de-semana.

Ninguém apresentou-se, pontapeando os políticos (?) castrados para o parlamento.

  • Sabe, começou.

  • Sei muito bem, interrompi, eu também bebo ao Sábado tardoite.

  • Então vamos ao que interessa, sorriu cúmplice.

  • Então vamos ao que interessa, supliquei.

Entrámos na cochia onde dormia uma serpente quadrada com bigodes de cartão amarelecido. Logo de entrada verifiquei que estava perto do fim da sessão da tarde e que a película estava toda corrompida por sábios estranhos aos desígnios da Pátria.

Ninguém depositou a chave do pensamento nas minhas mãos, coloridas de espanto. Então murmurou sem abrir a boca:

  • Vai.

A cavalo do impossível retirei-me para longe.

 

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publicado por vítor às 20:51
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Um Macho Sem Dez Tostões

 






Seguia estrada acima com uma dor manhosa no duodeno. Martelava as pedras do caminho com as velhas botas da tropa, distante, e talvez pensasse em bebidas estranhas de camone. As ervas da valeta exalavam cores abundantes e silvavam, baixinho, o gozo da carícia do Levante. Naquela altura os caranguejos começavam a espreitar, à passagem das pessoas, estendendo as pinças à esmola dos mais avantajados. A crise instalava-se no seio de todas as sociedades, complexas e não complexas, terrestres e marítimas.

Acotovelou um caranguejo à passagem:

  • Xô monstrego de duas bocas sem açaimo.

  • É só pra matar o bicho, pedinchou.

  • Vai trabalhar prá estiva, incapaz.

  • É a espandilose, desculpou-se.

  • A espandilose o caraças, onde já se viu caranguejo com espandilose.

  • É caso único, por isso te rogo dez tostões.

  • Sou macho, muito macho e além disso não tenho dez tostões.

O caranguejo, visivelmente derrotado, voltou ao buraco; estreito e profundo, na lama negra e pestilenta, lavado em lágrimas.

O vento é um eterno agouro, uma voz angustiada de marinheiros que vivem no fundo do mar, sem barcos para navegar.

Escarrou, alto e bom som, sem no entanto parecer indelicado ou mal intencionado. Pensou que os anos não eram mais do que dentes que apodrecem sem razão alguma e que, por isso, são atirados aos telhados das pocilgas onde costumam viver os homens.

É sempre cedo para descontar os impostos dos peixes às mulheres que se vendem por garrafas de champanhe amaricado.

Começou a desafiar as gaivotas sem poder de elevação e enleadas nas nuvens:

  • Então bicos brancos esfarrapados sem tesão, não gritam aos machos que passam? Com que coragem me fixam os olhos de machos neutros?

Ninguém lhe respondeu e continuou ao acaso em direcção ao ocaso imperturbável. Não há recepção possível por parte dos loucos comuns aos loucos do poder.

Uma vez, quando a mulher das tempestades bonanceiras apareceu ao povo, perguntou-lhe quem era o responsável pelo fluir das bebedeiras dos passarinhos metamorfoseados em passarões com pele de lobo e sentimentos de cordeiro. A resposta foi vaga mas responsável:

 





  • Um homem foi às traseiras da sua casa numa noite de bonança e se a cidade fosse no seu quintal teria visto toda a confusão da noite na palma das suas mãos.

  • Está bem, disse um amigo de ocasião, e se os anjos fossem realmente bons? A resposta amputaria assim as memórias vazias?

A mulher das tempestades bonanceiras começou a mudar de cores e, quando se tornou amarelada, desapareceu deixando um imenso oceano de respostas nas mentes dos cobardes presentes.

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publicado por vítor às 20:40
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