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Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

o olhar desinteressado dos cúmplices

 

Não é permitido o uso de qualquer sistema informático e/ou audiovisual. A placa de contraplacado com estes dizeres longos e claros era imperativa. Colocada à entrada da taberna, selecionava a clientela. Lá dentro, na penumbra difusa atrás do trava-moscas cantante, vultos dispersos ocupam algumas mesas silenciosas, ocultando os gestos no torpor do dia soalheiro. Uma tarjeta pequena  complementava a sua irmã exterior: reservado o direito de admissão.

Quando penetrei a penumbra acolhedora, ninguém voltou a cabeça, o olhar sequer, para a mudança musical operada pelos canudos pendentes da porta. A claridade esgueirava-se, atrevida, pelo salão, desocultando cones de poeira e fumo dançando no ar. Fumava-se no interior, emprestando à casa um odor a fim dos tempos.

Dirigi-me ao balcão e sentei-me num banco de pé alto, fincando os cotovelos no mármore gasto que separava o espaço público do privado: a vida às escâncaras da vida recolhida.

O seu pedido é uma ordem, disse alguém, a quem não vi os olhos, com voz mansa e rouca, por detrás da barreira, quase intransponível, trave estrutural do estabelecimento de bebidas e petiscos.

Lá fora a tarde deslizava, serena e quente, para os braços da noite acolhedora. As aves procuravam as sombras colhendo os últimos insectos antes do sono.

 

Para já é um medronho e mel, se possível com uma fina casca de limão. O seu pedido é uma ordem, retorquiu, procedendo às manobras de, sucessivamente, agarrar um copo de vidro grosso, uma garrafa de medronho e mel, uma faca e, pousando tudo no mármore terciário, colher um limão da cozinha adjacente ao escuro espaço entre o balcão e a estante de bebidas ocasionais. Uhf! Regressado do cubículo onde se enleiam os produtos que satisfazem as papilas gustativas dos clientes, através da cortina que esconde os espaços mais íntimos da casa, com gestos precisos e cénicos, apresenta, na minha frente, o copo bem servido de um líquido castanho atransparentado onde flutuava uma leve película da casca do citado citrino.

Com os olhos, agora habituados à luminosidade, percorro, demoradamente, o fluir dengoso do tempo no cenário intratasquino. Não estava à vista quem eu queria enxergar. Os seis ou sete clientes distribuíam-se por três mesas de tampo quadrado e mármore-sabão. Quatro jogavam às cartas numa mesa e os outro três ( agora sei que são sete os utentes) dispersos, solitários, em mesas salteadas. Sete clientes e quatro mesas ocupadas. Nove mesas na sala. Fraca produtividade no negócio.

Atravessei a sala e dirigi-me a uma das mesas vazias. Sentei-me de forma a controlar a porta cantante. A única fonte de luz do salão. A janela estava fechada.

Dos três solitários actores da cena que se desenrola ante a minha discreta presença, um, na mesa junto à janela fechada, dormitava em leves convulsões; outro, colocado estrategicamente nas proximidades da porta luminosa, controlava, platonicamente, com os olhos baços, sem sobressaltos, a mínima variação dos vultos que atravessavam horizontalmente a luz. Este olhar vazio, que se me escapara à entrada, porventura porque a cabeça não acompanhava o fulgor das sombras, fora, com certeza, o único dos residentes temporários do espaço extra-informático a registar a minha entrada em cena.

A realidade anda lá fora. Cá dentro o tempo parara. Sem sistemas informáticos e/ou audiovisuais, a cena flutuava num plasma sem tempo, impossível de localizar. Um buraco ao abrigo da voragem da informação.

Quando entrara para a Agência tinham-me aconselhado a nunca menosprezar a planificação do trabalho. Assim o tenho feito, cumprindo zelosamente o roteiro da ação. A vida antes da vida. A morte no fim da conceção. O dejá vu cumprido no fecho da cortina.

Eliminar a morte, matando, era o conceito matricial da agência. Assassinar assassinos. Um trabalho complexo e difícil, encomendado sempre por clientes apressados e profundamente empenhados no controlo da eficácia do prestador de serviço tão delicado. Eu era um profissional a sério, um estudioso, um fanático na execução do contratado e no cumprimento dos primeiros ensejos dos clientes. Um objetivo era absolutamente atingido quando primeiro e segundo outorgante apertavam a mão e partiam confiantes nos dias que perfuravam o futuro. À terceira parte envolvida nos meticulosos procedimentos, não restaria senão o presente e o passado. Assim seria o trabalho perfeito não houvesse sempre alíneas sobejantes, sobretudo vindas da parte do envolvido não contratante. Mas eram precisamente essas fímbrias incontroláveis e imprevisíveis que possibilitavam a continuidade do empreendedorismo da Agência. A vingança é a torrente que alimenta a necessidade. E a necessidade é o motor do barco que conduz cada ser humano. O vazio que se implanta barrando o desejo, obriga a ação a preencher o vazio que irá obstruir necessidades periféricas e por aí em diante num jogo de tudo ou nada que se repetirá pela infinitude dos tempos.

Os olhos ausentes do homem que fitava a irregularidade da luz vinda do exterior sem fim refletiram  um vago lampejo de sombra e a poeira flutuante nas cornucópias flamejantes das trevas aceleraram o movimento caótico da tarde.

Um vulto, que logo reconheci ser eu próprio, penetrou no antro amniótico da solidão. Como estava inscrito no destino dos sonhos, disparei à queima roupa salpicando de sangue o olhar desinteressado dos cúmplices.

 

(PS: Esta tasca existia  no alto de Coruche, no início da estrada para Almeirim, nos anos de 1985/1986. Lá passei muitas horas à espera da passagem dos tempos.)

sinto-me:
música: o tempo dos assassinos - Jorge Palma
publicado por vítor às 17:15
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