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Ontem, aquilo que te preocupava foi apagado
da memória e empacotado em livros discretos,
suportes de um tempo lavrado na cal das paredes
expostas ao cruel sonho da opressão, ao medo
que estilhaça a caminhada pelo pó onde
os pés rangem na noite espessa e sussurrada.
Ontem, os escombros que rejeitaste no novo dia,
ainda palpitantes e revoltos da edificação caótica
da véspera, esconderam para sempre as cicatrizes
que te vincavam o caminho silencioso, tatuagens
efémeras queimando a pele, incendiando
o caminho sombrio que o vento açoita.
Eis que de súbito, ontem ainda, se levantam
ondas alterosas arrastando os que ousam enfrentar
o desconhecido, que desenham caminhos utópicos
rasgando o apocalipse, os ciclos repetindo o tempo.
Esta repentina alteração na dança dos dados lançados
na planície apanha-te – nos princípios – desprevenido
e à deriva. Reaprendes a erguer-te da superfície instável
do devir, os olhos procuram outros olhos que te guiem
na imensidão do caos. Reaprendes a conhecer o que
importa na voluptuosa insolvência dos incautos.
Quando a correnteza das águas amaina, compreendes
que estás só, que os que te acompanhavam seguiram
outras veredas por entre os obstáculos salpicados
na imensidão do futuro. O tamanho dos dias que se estendem
diante de nós representa uma barreira na progressão, mas,
ao mesmo tempo, um desafio maior que te espera:
o curto espaço entre a vida e a morte onde
a cópula desoculta o caminho.
MG/VRSA 4/2012
Meto-me em cada uma... o que me consola, pouco, é que há palermas, poucos, maiores ...
Tavira, 2 de maio, na Biblioteca Álvaro de Campos, perante uma plateia em estado de espanto com as diatribes do introdutor da obra.
Por pudor, e para vos poupar, apresento-vos somente a 1ª parte...
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Quando se anda na rua, não tem problema. Retiras o macaco, rola-lo entre o polegar e o indicador e, quando já perdeu a humidade e não cola aos dedos, atira-lo, redondinho, para o chão. No automóvel, o processo é quase o mesmo. Só tens que abrir o vidro da janela e aventá-lo ao caminho. Não tem problema. As caretas que ofereces aos transeuntes enquanto pescas no estreito túnel não se distinguem das caras que se confundem nas vidas sem sentido.
O pior é quando as obstruções sólidas das cavidades nasais acontecem na cama. Na horizontalidade do sono ou nas convulsões da insónia e do sexo. Há já algum tempo que resolvi este problema. Dedo indicador revolvendo o habitat onde se criam os entes viscosos, unha em função de anzol retirando o inquietador, operação desumificadora com a sua rotação, já referida, entre o polegar e o indicador e … redondo, redondo, colocação do macaco extraído em cima da mesa-de-cabeceira. Ao lado dos livros incompletos, do relógio e dos anéis.
Quando o montante atinge quantidades incompatíveis como regular funcionamento de uma mesa-de-cabeceira, fora pela janela. Escusado será dizer que um monte de macacos se acumula do lado de fora da janela quase até ao parapeito. Parece uma obra plástica saída de um museu de arte contemporânea. E até fica bem no conjunto pimenteira-bastarda, pinheiro, buganvília, que assomam à janela. No entanto, não sei bem o que lhe faça. Ontem, o vizinho, o da barba azul, um homem estranho e educado, pospôs-se-me comprar o monte de macacos inertes. Rejeitei categoricamente. Vender algo que é meu e acumulei com tanta paciência e tempo, não me pareceu boa ideia. Mas passei o resto do dia e o que já passou do de hoje a meditar sobre as ideias do meu vizinho em relação ao destino para aquele monte de esterco. E, agora mesmo, alavancado pela febre da curiosidade que me é própria, decidi, sem pensar, vender-lhe o que me saiu do corpo e tanto tempo levou a edificar. Só assim poderei saber o destino que lhe está reservado.
M.G. 10/04/12

Não tem importância, nunca teve,
é uma gramática da pele, irrompe
sempre que as calmarias assentam
na reflexão contemporânea do olhar.
A importância das coisas é, ainda,
o panorama do silêncio para além das paredes,
conversa publicada no obrigatório confluir
das cerejas mordendo a própria língua.
Na tua luz a minha fala não tem
importância, filha da puta zurzindo
as ameixeiras que cada escritor ama.
Regressas à terra onde os gambuzinos te
inspiraram as primeiras, e únicas, palavras,
à terra que apenas existia debaixo
dos teus pés, à terra fragmentada
no imaginário inquieto das traseiras
do teu quarto. Porra! Eras um miúdo
distraído, cantarolaram as velhas
da aldeia atirando as orelhas para
o interior das almas fedendo a antanho.
A trilogia nauseabunda, extirpada
por arqueólogos assassinos que procuram
o mal oculto nos corpos, cega a vida virtuosa,
as pontas soltas dos devir: passado, presente e
futuro numa amálgama coberta de pó. O jogo
completa-se quando se juntam aos arqueólogos
assassinos companheiros vindos das profundezas
dos abismos dedilhando teclas de pianos “au menier”.
Foda-se, disseram em uníssono os escavadores de projetos
adiados: mineiros, autopsiadores, coveiros e poetas.
Escancararam portas para o profundo e iniciaram
uma digressão pelo mundo das sombras, questionando
o velho e o novo que se esvai em ninguém. Em
perguntas estéreis que ecoam nos complexos
jardins de carbono, viajando na infância precária.
Na comédia instrumental que percorre a noite
só os coveiros conseguem resultados tangíveis
e metamórficos: teorias da morte ou deriva das
paixões. A terra que volta a cobrir
o que confundiu a paisagem dos desafinados
caminhantes das sombras, xamanes da putrefação
divina, revela uma única verdade,
só uma, que amontoa escombros nos corpos
intumescidos. Só o poeta engole a última garfada:
o assassino da vida escassa, das asperezas da língua
silenciando o amargo estertor do sonho.
Não tem importância nenhuma, nunca teve.
Amém!
M.G. 10/04/12
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Dormiu 22 anos numa gaveta. Batida numa velha máquina de escrever. Resolvi-me, finalmente. a passá-la para o computador. Noites à lareira a reviver o passado. Duplo passado: o destas terras do fim do mundo e o meu. Cá está o resultado em mais uma edição Cativa.

Anselm Kiefer
"Algarve - 12 Poetas a Sul do Século XXI", por António Carlos Cortez
(…)
Pertencentes à geração que nasceu nos finais dos anos cinquenta ou nos inícios da década seguinte, temos José Carlos Barros, Fernando Esteves Pinto, Rui Dias Simão e Vítor Gil Cardeira.
(…)
(…) divergem de tudo quanto seja vigilância discursiva ou teorização literária dentro do poema. Com efeito, em muito se aproximam, os poetas que têm entre quarenta a cinquenta anos, do gosto inglês (?), espanhol (?). Prefere‑se um dizer que vai mero apontamento, do sardónico e corrosivo, ao melancólico e sarcástico entregue ao tom «maldito» (especialmente em Cardeira).
(…)
Na violenta época económica em que vivemos, poetas como Cardeira e Simão, vindos da geração de oitenta, lembram‑nos, pelo inusitado de certas construções verbais e pela sarcástica adesão a um real abjecto — que se impõe em textos de forte anti‑poesia, como que desautorizando o próprio gesto da escrita — a herança «sixties» que, neles, directamente se filia com certa poesia «beatnik». Mas algo de profundamente idealizado existe nos textos destes dois autores: por detrás do salivar relativista de tudo, esconde‑ se, por vezes aquele «fetiche do fim que dissolve a neblina» de que fala Cardeira... O mesmo é dizer que, entre gerações, as várias que aqui se reúnem, a poesia, ora como acto de imaginação, ou como engenharia verbal, ou profunda meditação sobre si própria, ora como revelação íntima ou confissão em diferido, acaba por chegar sempre aos leitores que a queiram ou saibam ler. Várias vozes são aqui alvo de reunião. As entradas sobre os autores especificam o quanto este prefácio não soube dizer. Informam‑nos sobre as linhas de leitura a ter em conta quanto a estes doze poetas.
Haverá, obviamente, quem venha a julgar programática (por algum motivo obtuso...) esta edição. Não há nada de programático. Apenas o Algarve (podia ser o Porto, o Douro, ou o Alentejo, como se disse) vem mostrar como a poesia encontra sempre ruas onde não há sinais de sentido único.
António Carlos Cortez,
22 de Outubro de 2011
Sairá em breve (ainda sem apresentações marcadas) a antologia de poesia Algarve - 12 Poetas a Sul do Século XXI (Editora Livros Capital), antologia que representa aquilo que alguns dos mais importantes poetas do Algarve (naturais ou adoptados) fizeram nos últimos anos. A antologia contempla poetas com obra de poesia publicada até à primeira década do século XXI e, para além de dez poemas por autor com respectiva biografia, tem ainda um ensaio crítico sobre cada poeta, ensaio esse escrito por outro poeta.
O prefácio é de António Carlos Cortez, poeta, professor e crítico literário.
Talvez fossem seis da madrugada quando a mulher chegou a casa, velho apartamento na Venda Nova, subúrbio de duas cidades. O filho dormia o sono profundo da adolescência. Pousou a mala no sofá da sala, e foi beijá-lo com lágrimas a esmagar-se no chão cheirando a alfazema. Meteu-se debaixo do chuveiro e desapareceu na nuvem de vapor que consumia o cheiro a tabaco e homem da noite inabitada. Nem o espelho refletia a luz do corpo cansado, enquanto se envolvia num roupão que fora azul. Vestiu-se na madrugada final e fumou um cigarro na kitchenete dum sétimo andar qualquer. Fumou outro e esperou demoradamente o esplendor da luz do dia que se adivinhava. O despertador digital rompeu o silêncio dos afetos, atirando à triste rigidez das paredes debotadas a música dos dias sem sentido. Pôs-se a fazer torradas e aqueceu o leite. Retirou a lata de chocolate em pó da chaminé.
- Aníbal, Aníbal, são horas. O odioso nome do pai. – Aníbal… vem…vem…
Sentaram-se nas cadeiras plásticas e, sem medo do amor, ele percebendo tudo. Ela sentindo a noite a ocultar-se na vida. Aos dezasseis anos já se compreende tudo, talvez como nunca mais alguém o possa entender. Sairam no Ford Fiesta para a procissão dos que não têm nada a perder e perdem tudo. Para, arranca, para, arranca e as palavras cumprem o tempo antes do princípio: o labirinto das vozes.
- Aqui mãe, deixa-me aqui. A escola ficava ao fundo da rua em movimento. Parou o velho automóvel em segunda fila e um beijo ecoou nas memórias dolorosas duma casa com gritos. Viu-o descer a ladeira com a mochila às costas e, mais ao fundo, encontrar um grupo de amigos. Riram até os deixar de ver para lá dos portões da escola.
Meteu a primeira e, de olhos baços, dirigiu-se ao balcão do centro de emprego. Um homem que a tinha olhado demoradamente chamou um táxi e, para felicidade do condutor, viajou para longe.

É NOSSO OBJECTIVO ENVOLVERMO-NOS CADA VEZ MAIS COM A COMUNIDADE. DESTA VEZ ABRIMOS AS PORTAS E JANELAS, PARA QUE OS PROTAGONISTAS SEJAM OS QUE EM COMUNIDADE HABITAM AS PESSOAS... BRINCANDO E REFLETINDO EM CONJUNTO, COMO TÃO BEM O TEATRO SABE FAZER...
LEITURA ENCENADA DO INSPECTOR GERAL DE NIKOLAI GÓGOL - dias 20 e 21 de janeiro, com lotação esgotada.